terça-feira

Contra uma parede, apertado pela incerteza de não perceber se devo acompanhar as palmas tenho vontade de comer tudo o que nos atrapalhar para puder cuspir para o chão e pisar com orgulho tudo o que nos magoa.

O disco continua a tocar no velho gira-discos da sala, a luz que entra pelas janelas através das cortinas verdes transmite outra sensação a todas as acusações que fazemos um ao outro e leva-me a perguntar se sentiria as coisas de outra maneira se a cor fosse outra.

Ando para cima e para baixo, às voltas, não sei para onde vou nem para onde quero ir. É uma pressão que me afecta, que nos rodeia da qual não nos conseguimos livrar nem olhos fechados.

Todo este sentimento que nos assiste não nos tem trazido qualquer tipo de lucidez, parece turvo, sente-se turvo e provavelmente acabamos por turvar de acordo com a esfera da sua influência. E é triste não vermos aquilo que precisamos de saber para mudar, é triste já nem sequer tentarmos, provavelmente por eu ter toda a minha atenção virada para o problema e não para a solução.

Não é o vento que me passa pelas costas e me diz para ter cuidado com o tempo que me atrapalha o pensamento, é a constante falta de bom senso que eu apresento, é a covardia que ostento com duas pingas de presunção e outras tantas de orgulho que me tornam uma pessoal complicada de lidar.

Eu não tenho medo de não ter mais nada para dar nem de saber que não tenho mais nada para mostrar, eu caí porque sonhei demasiado alto e não estive à altura dos meus pensamentos. Agi irreflectidamente segundo princípios incorrectos que adquiri de maneira errada, no entanto não tinha mais nenhuns e não tive na altura maneira diferente de actuar.

Se soubesse, faria tal e qual como fiz quando não sabia que estava a errar. Errei porque calhou, na altura, ser eu a pessoa que, hoje sei, julgava ser tão diferente, tão capaz. Agora sei que bastava todos os dias provar-te que te amava como desde o primeiro dia em que tu , envergonhada, disseste que aceitava namorar comigo. A inocência desse teu sim ocupa-me o coração sempre que olho para ti e faz-me acreditar que tudo entre nós vai passar e eventualmente resultar, porque, acredita quando te digo que embora já tenha passado por muito não senti ainda hoje dor maior do que quando me dizes que já não te vês a meu lado.
E choro pela incerteza de não saber o que vou sentir quando deixar de te ver sorrir por alguma piada parva que eu disse.

E tu sabes tudo. Conheces o sabor do vento, sabes de cabeça quantas gotas cairam quando chorei aos teus pés. A tua certeza aniquila as minhas dúvidas, constroem-se incertezas nas fundações putrefactas daquilo a que chamamos de amor, aquele sentimento que julgamos sentir, que julgámos ter conseguido sentir, e sentimos, mas não o soubemos preservar. Fizémos tanto, dissémos tanto, chorámos tanto que acabámos por estragar o que tentámos construir.

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