terça-feira

Jamiroquai - Seven Days In Sunny June

Estou sentado no meu escritório a fumar o meu cigarro acabadinho de enrolar e que bonitinho que ele estava antes de o acender. Que bem que me sinto aqui, a janela está aberta na medida certa, tudo está bem.

- Boa tarde Inspector, posso?

Era o Agente Quatro e meio, pelo menos era essa a alcunha dele, o nome ninguém sabia por isso toda a gente o trata por 4,5.

- Claro que sim, força, faça o favor de entrar.
- Olá, boa tarde, vinha-lhe pedir um favor.
- Claro que sim, força, o que precisa?
- Bem, preciso de dois quilos de farinha, quatro ovos e a Lúcia disse-me que tinha para ai um resto de pudim já com alguns dias.
- Claro que sim, o que não falta para aqui é farinha e ovos, agora o pudim é não posso dar.
- Ui, mas eu precisava mesmo desse bocadinho de pudim sabe?
- Claro que sim, imagino que sim, mas repare 4,5, eu adoro pudim verde.
- Verde?
- Claro que sim, nada me agrada mais do que comer um pedacinho de pudim verde depois de fumar um belo cigarrinho acabadinho de enrolar.
- Aquele pudim? Aquele que está ali em cima daquela prateleira?
- Claro que sim, esse mesmo.
- Mas.. aquele pudim é amarelo, torrado, pudim.. amarelo torrado.. deduzo que seja de baunilha..
- Claro que sim, de baunilha sim senhor.
- Então mas o Inspector disse-me que gosta é de pudim verde, de kiwi presumo, talvez abacate ou lima, no entanto aquele é de baunilha, é amarelo, torrado, é de baunilha é amarelo e torrado, mesmo o que eu precisava para fazer os queques de morango.. não me o pode dispensar..
- Claro que sim, no entanto não o dispenso. Repare 4,5, o pudim apesar de estar amarelo, vai-se estragar, ficar verde, horrivelmente nojento, com um pivete quase insuportável a esgoto, cheio de larvas, de bolôr azul que lhe dá aquele toque quando a luz da lua incide sobre o copo onde se encontra o pudim e me ilumina o escritório com uma côr escarlate que me inspira a escrever sobre uma data de coisas sobre as quais não tenho opinião nenhuma e é por isso mesmo que eu, por muito que gostasse não o posso dispensar.
- Ora bolas, então e agora como é que eu faço os queques de morango? Prometi à Lúcia que seriam a sobremesa para depois do jantar, e eu nem quero imaginar o que me vai acontecer se a Lúcia não tiver os seus queques de morango para a sobremesa..
- Claro que sim, compreendo perfeitamente que a sua situação não é de todo agradável, aqui na agência todos nós conhecemos muito bem a Lúcia e digo-lhe, com a maior sinceridade que o meu corpo neste momento me permite disponibilizar que chego a ter pena de si caso não consiga fazer os tais queques de morango para a sobremesa, por isso leve lá o pudim homem, a escrita pode ficar para outro dia.
- Muito obrigado Inspector!
- Claro que sim 4,5, agora saia lá do meu escritório que eu preciso de escrever e esse seu bafo azedo a vómito de hiena desdentada com o cio faz-me uma confusão danada e não me permite sobre coisas que não faço ideia do que sejam.
- Então porque é que escreve sobre elas?
- Bem porque.. bem porque.. ora repare bem numa coisa Quatro e meio, estamos em que andar?
- Estamos no 3º andar Inspector!
- Muito bem, e quantos andares tem este prédio?
- Bem.. dois.
- Ora exacto! Não estamos propriamente num andar pois não?
- Bem.. não.. quer dizer.. não deixa de ser um escritório.. em cima dos outros.. enfim.. no telhado talvez..
- Claro que sim, no telhado, e o telhado é um andar?
- Bem.. pois.. hm.. suponho que não.. talvez.. pois, não, não é.
- E quantos escritórios há por andar 4,5? Mais de 30 não é? E em cada escritório mais de 20 pessoas, todas elas a escreverem sobre os mais variadíssimos tópicos, assuntos, temas, tudo coisas da mais alta importância para o estado, para o governo, para o pais!! 
- Em permanente actualização!
- Claro que sim, em permanente actualização!
- Pois é Inspector!
- Claro que sim, e em todos esses escritórios, todas essas pessoas foram contratadas para preencher um perfil muito especifico de maneira a desempenharem a sua função com a mais absoluta exactidão cientifica, politica, enfim, enfim, enfim, correcto 4,5?
- Correcto Inspector!
- Claro que sim, pois bem 4,5, eu suponho, sou um suposto Inspector, um Inspector da suposição, suponho sobre tudo o que os outros escrevem, sou eu quem gera as dúvidas, as incertezas, as questões, sou eu quem levanta certas causas pelas quais tantos lutam e só depois de sentirem a garganta a doer quando acabam a luta e chegam a casa cansados, exaustos, suados, com quatro ou cinco pastilhas para a gripe no bucho depois de terem estado o dia todo ao sol a gritar por um ideal, por nada, para nada, por um ideal ou ideais que eles julgam ou julgavam ou julgarão ser um direito, eu caio-lhes em cima como um raio, como um trovão, como um relâmpago, foda-se como um corrisco como se fosse um adolescente aos pontapés e grito-lhes aos ouvidos, um a um: "ESTÁ TUDO MAL, VOCÊS ESTÃO MAL, ESTÁ TUDO MAL, ELES ESTÃO MAL, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O VELHO IDEAL, VIVA O NOVO IDEAL!"
- Tudo mal inspector.. tudo mal.. é bem verdade..
- Claro que sim 4,5, eu sou a jurisprudência, a idoneidade, a identidade, a salvaguarda do estado, se o povo não lutar para que raio é que precisamos do governo? Como vai um governo governar se não existir desgovernação? Há que haver luta para governar! Há que haver sangue nas ruas para o que governa possa vir e salvaguardar a ordem, e segue e segue e segue e segue, e assim continuaremos até que você me traga a merda dos queques de morango porque já estou a ficar com fome.