quarta-feira

Sentia-me perdido, aliás sabia que estava perdido pois à mais de duas horas que andava à procura da mercearia do senhor Américo para comprar os atacadores para as botas do meu pai. Ainda não tinha decido parar para pedir direcções porque sinceramente, ainda não tinha encontrado nenhum sitio onde me parecesse que fosse possível obter direcções credíveis e honestas, pois como bem sabem, neste mundo de barbas todo o cuidado é pouco e eu fui educado a ter sempre o máximo de cuidado possível mesmo com o mais pequeno dos detalhes. Ao vaguear pelas ruas, que por esta altura do ano estavam cobertas daquelas horríveis aves migratórias que deixam o chão peganhento por causa das suas escarretas e o céu lilás por causa dos gases que emitem sempre que pousam nas chaminés que estão carregadas do pó da época festiva que celebra a morte do Aníbal Bravo, o nosso grande e ousado salvador, tive finalmente sorte quando encontrei um grande letreiro com letras enormes de néon azul, com lâmpadas amareladas à sua volta que dizia "Raul, o Rei do Bacalhau". 
Alguém que seja rei, será certamente a pessoa indicada para me dar as indicações que preciso. Entro na loja e rapidamente apercebo-me que provavelmente estou no sitio errado, havia sal por todo o lado mas nada de bacalhau. Aproximo-me do balcão e dou quatro toques no chão de madeira com a minha bengala feita de borracha e ferro enferrujado, tinha-me sido oferecida pelo meu avô que, no leito da grande regra me disse com os seus três olhos azuis: "Júgustavo um dia saberás que para além de matar baratas, esta bengala vai-te ajudar a cavar todas as aranhas que precisas." E morreu, feliz, porque o seu sorriso era bem maior do que as almofadas que lhe apoiavam as orelhas. 
Finalmente, através que uma brecha da parede que julguei ser apenas um buraco por onde passassem os tuberculosos, sai um homem com um porte fabuloso, alto, gordo, com quase dois metros de altura e 120 quilos, mas muito marreco, tão marreco que mal conseguia chegar com o queixo ao balcão, foi-me fácil saber a altura porque estava-lhe escrita na testa.

- Olá bom dia meu caro, em que posso ajudá-lo?
- Bem, eu estou à procura de atacadores.
- Pois bem, veio ao sitio certo?
- Ai vim? Então mas, o senhor não vende bacalhau?
- Eu vendo tudo, de tudo!
- Explique-me então como é que o senhor é o rei do bacalhau se só tem sal?
- Oh meu caro, como raios queria você que eu vendesse bacalhau se não tivesse o sal para o salgar?

A sua resposta escandalosamente clarificante fez-me dar uma dentada na bengala, quando já estava a chegar ao ferro, oiço uns passos pesados e vejo sair pelo mesmo buraco de onde saiu este marreco uma mulher ainda mais forte do que ele, enorme, com um vestido azul que mesmo com a pouca luz existente fazia com que me fosse muito complicado olhar para ela. 

- Uuuuuuuh Raul, o que temos nós aqui? Um cliente? Logo agora que só temos sal!
- Sabe minha senhora, eu na verdade nem quero bacalhau, só quero comprar atacadores para as botas do meu pai.
- Veio ao sitio certo!
- Já é a segunda vez que me dizem isso desde que cá cheguei e a verdade é que me custa muito a acreditar que tenha vindo ao sitio certo, porque na entrada indica que o seu esposo é o Rei do bacalhau e nem um bacalhau tem para amostra!
- Que perspicaz este belo rapaz! Oh Raul, fazia tempo que não tinhamos assim um vivaço, as minhas filhas vão adorar conhecê-lo!

Após dizer isto saem, pelo mesmo buraco 5 raparigas cada uma mais feia do que a outra e todas elas riam e choravam, dos seus três pares de olhos caiam pregos e pontas de papel de rebuçado, uma coisa parva para a vista mas ainda pior para os ouvidos pois o barulho que faziam fazia lembrar o de um cardume que vem à superfície em busca de comida e é devorado pelos caniches asas curtas, tentei ser o mais cordial, o mais gentil possivel na escolha das minhas palavras e disse:

- Puta que pariu! Cada uma mais feia do que a outra, eu a pensar que você era feia mas, Santo Anibal! Depois de ver estas cangalheiras fiquei com uma vontade de largar uma bela poia de merda no meio deste sal, podia ser que ao menos trouxesse alguma cor a esta loja de merda!

Sai da loja, estava farto do cheiro, do barulho, da escuridão. Senti-me imediatamente sozinho, porque, sinceramente, naquele ambiente pútrido senti que a minha feiura não tinha sido questionada mas por breves momentos adorada. Quis voltar mas sempre me ensinaram que o passado não empurra a água, apesar de eu nunca ter percebido este ditado que as velhotas desdentadas costumavam dizer à minha mãe na altura da apanha da farinha.
Segui por uma rua iluminada porque o meu senti o meu corpo levar-me para lá, a rua estava a vibrar de gente. Estava impregnado no ar um cheiro a uma mistura de perfumes, de polpa de tomate, de palavras falsas, de amor, de romance, de ódio,  paixão, tudo misturado, palpável, vendia-se aliás em pequenas bancadas de limonada de framboesa pequenos frascos da fragrância "Cheiro Mome", era o nome que se dava ao cheiro que impregnava as ruas nesta altura festiva. Dizia a lenda que, quando o nosso grande salvador, o Anibal, derrotou os cavaleiros da fortuna e os trouxe à praça do povo e os obrigou a beijar os pés a todos os que sofreram de acordo com os seus caprichos, disse-lhes:

"Vocês, reles e sujos,
Despojaram-nos a alma
Vocês, reles e sujos,
Fizeram-nos que somos menos

Vocês, cobardes e feios, 
Minaram-nos o feitio
Vocês, cobardes e feios,
Tornaram-nos melhores

Somos agora melhores, depois de anos a ser inferiores
Visto que tudo o somos somo-lo sem vós
Somos agora melhores porque sabemos ser superiores
Queremos agora viver ao sabor dos nossos avós

Vamos viver, gritar, correr
Vamos chorar, gritar, gemer
Vamos amar, vamos comer
Vamos sofrer mas vamos vencer

Encolham-se na vossa figura, deixem-nos viver
Porque jamais vamos nós voltar a negar aquilo que fomos
Percebam que são vocês menos, e nunca o contrário
Porque jamais vamos-nos voltar a dobrar sobre aquilo que somos"

Foi com este poema que o Santo Aníbal, o nosso salvador, derrubou o poder do vicio e conquistou o povo. Um homem grandioso, um exemplo, o alcoólico mas no entanto um herói, porque independentemente do vicio, sabemos nós, todos nós sem excepção, que as grandes almas têm grandes vícios. Cheguei sem os atacadores, o meu pai apercebeu-se logo que eu não os tinha trazido e assim que pus um pé dentro de casa perguntou-me:

- Então rapaz, que cara é essa?
- Bem pai, acho que vais para a tropa descalço.

segunda-feira

Sou todo um mundo que paira sobre uma tamanha ilusão do que é ser gente. Sei que só quero sentir e amar, beijar uma folha que me conte tudo sobre o amor. Cada vez mais acredito que uma das grandes mentiras foi terem-nos tirado a ideia, à grande maioria de nós, de que a imagem que temos de Deus deve ser formada por nós à medida que crescemos, que caímos, que sofremos, que choramos, que rimos, que aprendemos e ensinamos, e não por desconhecidos cujas intenções desconhecemos. Cada vez mais acredito que para mim Deus, mais do que uma personagem divina que criou as mais belas imagens é simplesmente o amor que sentimos por alguém quando um abraço afasta qualquer mágoa que até então sentíamos que ia perdurar para sempre. 

Eu não sei do que falo, não sei o que digo, sei que o sinto e o resto, deixo que venha, que se solte em mim, por acréscimo, a cada dia como se o tempo me dissesse: "Sabes, eu não paro, eu nunca parei e eu nunca vou parar." 

Resta-nos aproveitá-lo.