segunda-feira

Preguiça

É na preguiça, quando me lembro daquelas tardes preguiçosas que às vezes adormeço a pensar. Com os meus pés no ar, vivo e cuspo fogo, tento e giro, giro às voltas com todas as minhas certezas e incertezas incertas cheias de cordas feitas de bambú, porque eu hoje aprendi que gosto muito dessa palavra, e repito-a até deixar de fazer sentido. Lembro-me de estar quieto, sossegado sem muito em que pensar nem muito com que me preocupar. Vá lá, tu consegues mais do que isto, tu és muito melhor do que isto, quando pensam que de alguma maneira me ultrapasso e me revelo quando escrevo o que penso, quando digo aquilo que escrevo, quando o que escrevo parece revelar alguma parte de mim que nem eu próprio conheço, é agora que vos digo que tudo o que até hoje escrevi veio de pequenos toques, por pequenos detalhes que eu não fiz, que eu não criei, que já lá estavam, eu simplesmente tive a sorte de estar no sitio certo pronto para os admirar. Eu não procuro ser mais do que sou, nem procuro passar a imagem que de procuro ser mais do que sou, eu sou simplesmente e limito-me a existir, tal como qualquer outra pessoa, simplesmente tenho como passatempo, de vez em quando, quando posso e me lembro, de escrever o que os dedos permitem. 
Se eu pudesse pedir algo, se por algum acidente no tempo me viesse parar às mãos a capacidade de pedir algo que estivesse fora dos limites da nossa realidade o meu maior desejo seria neste momento, parar, parar simplesmente tudo com um toque mágico, deixar que este dia se prolongasse por vários anos, sem que uma única pena se mexesse em tempo algum, para que eu pudesse ter tempo de aproveitar no pouco tempo que me resta tudo o que nunca vou conseguir ver, apreciar, sentir, cheirar, de outra maneira. Que egoísta da minha parte pensar desta maneira, e que gozo que me dá pensar desta maneira.
O meu maior pecado é ser egoísta, admito, e sou egoísta porque consigo ser ainda mais preguiçoso do que egoísta, e a verdade é que por muito que gostasse de mudar esse traço, sou demasiado preguiçoso para o fazer, portanto aqui me vou mantendo, egoísta e preguiçoso, enquanto trago sofrimento a alguém que devia amar e que, na minha enorme sapiência, consegui fazer com que me odiasse. Ainda não consegui perceber de que modo é que a raiva se alimenta. Julgava ser uma pessoa cuidadosa, que se procurava, mas tenho vindo a aprender que se dependesse de mim, metade do mundo morria à fome.
Eu não tenho vontade nenhum de comprar uma arma para começar uma guerra, quando muito, comprava uma arma para acabar com uma guerra. Meu amor, desculpa todo o mal que te causei, se pudesse, tirava de mim o tempo que perdeste e dava-to a ti, acredita que sim, mas não o consigo fazer. Sei que as minhas desculpas não servem de nada, por isso a única coisa que te posso prometer é que me vou retirar de maneira a que a imagem que ficas de mim seja melhor do que a que tens neste momento,
Perdi a oportunidade e o tempo de, através da única regra que sabemos que toda a gente cumpre, de me aproximar de alguém, que, apesar de me ter dado vida, nunca fez parte dela da maneira que eu julgava ser certa ao contrário dos olhos de quem me ensinou e educou. Ainda não encontrei uma descrição sobre a morte que me faça sentir mais confortável sobre ela, no entanto, desta vez vi que a morte é uma oportunidade para quem vai de ter o direito de ser recordado e para quem fica o dever de fazer o suficiente para que quando morra, faça com que quem acabe por ficar se lembre de quem foi com um sorriso.

Plano de atitude

Sonho perdido e corro à procura de ouvir quem sou. Por vezes, dizem-nos o que somos, quem somos, o que fizemos, e custa-nos a aceitar porque temos muita dificuldade em aceitar que aquela imagem que mostram de nós pode ser muito mais verdadeira do que aquela que julgávamos ser a verdadeira, a que criámos sobre nós. 
Eu não me lembro que escolhas fiz no passado que me levaram a ser a pessoa que sou hoje. Tinha a convicção de ter feito muitas escolhas certas mas cada vez mais, parece-me que caí sempre no erro de escolher as erradas. Porquê? Porque eu sei lá, porque provavelmente julguei estar a agir da melhor maneira, porque provavelmente na altura em que as fiz muitas das minhas idéias e ideais eram bastante diferentes.. e não é isso algo perfeitamente normal? Não faz isso parte do processo que é, crescer, uma normalidade? Anormal seria, julgo, não pensar nisso. 
Se me dou ao trabalho de parar para pensar na pessoa que sou, na pessoa que me tornei e consigo ver que falhei em quase todos os aspectos que até à muito pouco tempo julgava.. sei lá. 
Isto, no fundo, nada mais é do que um desabafo, porque eu sinto que quando escrevo distancio-me de mim e isso traz-me alguma tranquilidade. Isto, isto, isto não é um caso raro, nem um caso de excepção, nem um caso que suscite qualquer tipo de preocupação, isto, isto é uma análise que eu tento fazer mas que tenho muita dificuldade em aprofundar, em chegar a algum lado, porque faltam-me as forças para descobrir uma melhor maneira de o fazer. Por mais que tente, por mais que grite e chore, nunca julguei um dia ficar sem palavras para expressar o que sinto quando falo de mim, do que passo, do que passei, do medo que tenho de não saber como lidar com aquilo que muito provavelmente sei que vou passar. É curioso sentir que no fundo, é o medo que me dá medo, e é nesta conclusão que me apercebo que sendo apenas o medo, o meu obstáculo primário, ser-me-à muito mais fácil ultrapassá-lo sabendo que fui eu que construí esse receio, e se o fiz, sozinho, será também sozinho que o vou derrubar e ultrapassar.



"Ao fugir da própria vida, Sem correr e sem saltar, Oculto sangue que tenho para dar"
- Sangue Oculto, GNR