sexta-feira

estou apenas à espera de um segundo em que hesito e penso que não consigo mais esperar pelo que julgo ser um pouco de loucura em forma de pacote de açúcar. divagações à parte, detesto café sem açúcar, fico sempre com um arrepio na espinha quando provo algo amargo, e no entanto cá estou, amargamente frustrado por ainda não ter conseguido entender como raio é que aquelas plantas carnívoras parecem ser muito mais inteligentes do que eu sempre que as vejo na televisão. felizmente para mim existem tantas provas de que há tanta vida muito mais parva do que eu e isso faz-me sentir aliviado. eu não gosto de escrever, entreti-me à relativamente pouco tempo a reler muito do que escrevi e metade não me lembro de ter escrito, sinceramente, se me mostrassem muitos dos textos que escrevi e me dissessem que eram meus, eu provavelmente ofendia a pessoa com todos os nomes que me ocorressem na altura. aliás, acabei de ler o que escrevi e se alguém agora me dissesse que tinha sido por mim eu atirava-lhe à cara o router da NOS.

eu não gosto de fazer piadas, nem me julgo engraçado no entanto acredito que tenho pinta de comediante. porquê? bem, porque convenhamos, todos os humoristas portugueses ou são gordos, ou feios, ou têm uma voz extremamente irritante e eu sou uma mistura desses três factores: gordo, feio e com uma voz irritante ao ponto de não ser o ressonar que incomoda a minha parceira à noite mas sim quando lhe pergunto - na variante mais doce que sou capaz de fazer com a minha voz - : "Amor, passas-me a garrafa de água?". 

eu não sei porque escrevo, honestamente que não sei. já não me lembro porque comecei a escrever. lembro-me de tanta coisa mas disto não. lembro-me de um amigo uma vez me ter dito que me repetia, muito, que falava sempre do mesmo da mesma maneira, que cada texto meu parecia uma cópia dissimulada do anterior e que por vezes quase que conseguia adivinhar sobre o que eu ia falar no próximo texto. eu agradeci-lhe por ter tirado tempo precioso da sua vida vagabunda para ler algo que eu escrevi e eliminei-o dos contactos do MSN. pessoa detestável. como assim repito-me? claro que me repito, a vida é feita de repetições, quantas vezes não demos por nós a desejar repetir uma determinada experiência? eu fazia isso em cada novo texto e aquele desgraçado teve a lata de criticar a minha infinita sabedoria e sapiência? puta que o pariu!

bem, mudando de assunto, vamos voltar ao que estávamos a falar. se bem que.. estou só a divagar.. e como adoro divagar! voar neste mundo cheio de parcas palavras, tão cheio de emoções onde apenas o luar me consegue adormecer ao som dos grilos e o que raio é que se está a passar quando não consigo sequer encontrar um pretexto para escrever, onde cada palavra que me sai é apenas um ruído, sim um ruído a mais neste ensurdecedor mar de sentimento de frustração que me assola, que me leva a dirigir este, este, este.. este singelo rumor. este pequeno e frágil rumor de que mais não sou, de que mais não passo do que um suspiro nesta bela estória de amor. 

se fossemos todos mais capazes, mais verdadeiros, mais sinceros, honestos, belos, menos gordos, mais altos, atarracados, com verrugas, somos o que somos e porque é que temos que estar constantemente a pedir desculpa por isso como se aquilo que somos não fosse suficientemente bom, ou capaz, para sermos apenas gente e sermos aceites como pessoas válidas, dispostas e disponiveis para amar, para errar? porque é que não podemos errar? porque assim não havia necessidade de excelência. se continuarmos a refugiarmos-nos em clichés do género "errar é humano" , o que se faz à excelência? se não formos excelentes no que fazemos para quê sequer abrir os olhos todas as manhãs? ou noites? ou à tarde a seguir ao almoço se formos espanhóis? e quem é válido para exigir tal excelência? e porque é que a temos que atingir diariamente? e porque é que temos que pensar nestas coisas? e porque raio é que não podemos aceitar que aquela pessoa é preguiçosa e que isso faz parte da maneira dela ser e que, ela ao ser já o é e que talvez por pressão de outro alguém se esforçar por deixar de ser preguiçosa e deixar de ser, de existir? pergunto isto porque, se o é, se existe assim, ao deixar de o ser não deixa também de ser quem é por, talvez, capricho de outro alguém? pela necessidade do outro alguém exigir que se mude, que se modifique um - basta um! - traço da sua personalidade para ser mais fácil simplesmente ESTAR, comigo? contigo? não! basta! é um exagero sequer passar pela cabeça de alguém querer que outro alguém mude algo, seja o que fôr! SEJA O QUE FÔR! para se conseguir ter qualquer tipo de relação com essa pessoa. manipulação! covarde! 
é esta angústia, esta falta de respostas que me tiram o sono à noite, não é o café, o café ajuda-me a ficar acordado enquanto procuro respostas. vou tentar sintetizar:

- é certo, ou justo, pedir a alguém - directa ou indirectamente - que mude por nós?

e eu não me refiro a assassinos, a alcoólicos, a toxicodependentes, a ninguém com vícios semelhantes que claramente ponham em causa qualquer tipo de relacionamento, refiro-me a traços que fazem parte de nós, traços naturais que cresceram connosco e que nós crescemos com eles, que fazem parte de nós com os quais nos identificamos, que nos fazem SER quem SOMOS, simplesmente por SERMOS NÓS PRÓPRIOS! PRÓPRIOS! Definição de próprio: QUE PERTENCE EXCLUSIVAMENTE A ALGUÉM! JESUS FODA-SE FUCKING CHRIST! EXCLUSIVAMENTE, A ALGUÉM! FAZ PARTE DE MIM!

Acabo, assim, a rir-me de mim.

Porquê, querer mudar algo nosso, para que correspondamos ao que esperam de nós? Se me conheces, se sabes quem sou, não queiras que mude, aceita-me, se não o fizeres lembra-te que também eu demorei muito tempo a aceitar-te, que também eu não sou excelente, nem perfeito, tal como tu e como toda a gente sou apenas único, porque não há ninguém igual a mim, nem a ti, e a beleza é essa, no meio desta cambada toda, sou único, somos todos, todos, únicos, e é tão giro chegarmos aqui. tento aceitar quando me dizem que sou de determinada maneira porque quando existo disponho-me a ser julgado por quem me vê, por quem conversa comigo, por quem lida comigo, são os outros, através da experiência que têm comigo que têm o direito de me apontar o dedo quando erro, e aceito esses erros porque errar é definitivamente humano e eu não procuro excelência. procuro liberdade para ser quem sou, para existir, para crescer, para tomar poucos banhos, para chorar, rir, amar, comer, ensinar, crescer e aprender. 

Não existo se não souber quem sou. Não sei na verdade quem sou, cada vez mais sinto-me perdido em mim próprio. São todas estas incertezas sobre a minha pessoa que muitas vezes não me deixam ver para além delas. Ainda não encontrei em mim muita coisa gostasse e isso assusta-me até um certo ponto porque cada vez mais sinto que vou encontrar em mim menos coisas que possa vir a gostar, e se é assim que me sinto, é impossível ter uma relação com alguém porque sei que,  não estando bem comigo mesmo nunca vou conseguir estar bem com mais ninguém. 

Não era bem assim que queria acabar o texto mas sinceramente não me lembro porque é que o comecei. Se alguém me acompanhou até aqui, obrigado. Todas as minhas noites são assim quando me vou deitar, é nestas merdas que penso, é desta maneira que penso. Se me mostrassem este texto e me dissessem que eu tinha sido escrito por mim, desta vez acho que acreditava.