sexta-feira

Cada vez mais sinto que sou um triste rebelde preso num quarto a ouvir música que não percebo cuja única percepção que tenho da vida é a que de, no fundo, morrer é viver.
Gostava de puder saber um dia se a amplitude de todos os meus gestos tiveram realmente a realização que eu fiz deles ou se fui apenas uma pena ao sabor do vento, que triste seria saber que mais não fui do que, como alguém um dia me disse um pequeno passageiro do destino sem força para questionar ou decidir. Senti-me como uma pequena embarcação refém da vontade das marés e gostei dessa ideia. Quis essa afirmação dizer, no fundo, que nada do que eu fiz ou farei poderá ser imposto - isto, mais tarde num julgamento superior - como algo que eu quis fazer se não apenas algo que fiz porque estive lá no momento e não porque procurei fazer parte desse mesmo momento. 

Mas foda-se, que merda sei eu?

Sou um miúdo perdido à procura seu lugar no mundo, sou um cliché sem qualquer importância. Sou uma vida que vagueia sem caminho, não diria que sou uma alma perdida porque me encontrei a mim mesmo neste mundo e tomei consciência, seguramente tarde, de que posso ser mais do que valho.

Eu sei lá.

Transpiro a essência de não saber revoltar-me com o mundo nos momentos oportunos. Não é a confusão que me confunde nem o barulho que ela faz à noite quando tento dormir, porque a mim o que mais me custa quando estou a tentar adormecer é ter medo de não saber se quando acordar vou conseguir lutar por mais alguma conquista ou se vou cair de joelhos perante o julgamento dos muros que caíram porque eu não os consegui segurar.

terça-feira

Cada vez me assusta mais a ideia de um dia te encontrar. Tenho medo de te descobrir com os meus próprios olhos. Apenas te peço que me avises e permitas que me prepare para te aceitar.
Contra uma parede, apertado pela incerteza de não perceber se devo acompanhar as palmas tenho vontade de comer tudo o que nos atrapalhar para puder cuspir para o chão e pisar com orgulho tudo o que nos magoa.

O disco continua a tocar no velho gira-discos da sala, a luz que entra pelas janelas através das cortinas verdes transmite outra sensação a todas as acusações que fazemos um ao outro e leva-me a perguntar se sentiria as coisas de outra maneira se a cor fosse outra.

Ando para cima e para baixo, às voltas, não sei para onde vou nem para onde quero ir. É uma pressão que me afecta, que nos rodeia da qual não nos conseguimos livrar nem olhos fechados.

Todo este sentimento que nos assiste não nos tem trazido qualquer tipo de lucidez, parece turvo, sente-se turvo e provavelmente acabamos por turvar de acordo com a esfera da sua influência. E é triste não vermos aquilo que precisamos de saber para mudar, é triste já nem sequer tentarmos, provavelmente por eu ter toda a minha atenção virada para o problema e não para a solução.

Não é o vento que me passa pelas costas e me diz para ter cuidado com o tempo que me atrapalha o pensamento, é a constante falta de bom senso que eu apresento, é a covardia que ostento com duas pingas de presunção e outras tantas de orgulho que me tornam uma pessoal complicada de lidar.

Eu não tenho medo de não ter mais nada para dar nem de saber que não tenho mais nada para mostrar, eu caí porque sonhei demasiado alto e não estive à altura dos meus pensamentos. Agi irreflectidamente segundo princípios incorrectos que adquiri de maneira errada, no entanto não tinha mais nenhuns e não tive na altura maneira diferente de actuar.

Se soubesse, faria tal e qual como fiz quando não sabia que estava a errar. Errei porque calhou, na altura, ser eu a pessoa que, hoje sei, julgava ser tão diferente, tão capaz. Agora sei que bastava todos os dias provar-te que te amava como desde o primeiro dia em que tu , envergonhada, disseste que aceitava namorar comigo. A inocência desse teu sim ocupa-me o coração sempre que olho para ti e faz-me acreditar que tudo entre nós vai passar e eventualmente resultar, porque, acredita quando te digo que embora já tenha passado por muito não senti ainda hoje dor maior do que quando me dizes que já não te vês a meu lado.
E choro pela incerteza de não saber o que vou sentir quando deixar de te ver sorrir por alguma piada parva que eu disse.

E tu sabes tudo. Conheces o sabor do vento, sabes de cabeça quantas gotas cairam quando chorei aos teus pés. A tua certeza aniquila as minhas dúvidas, constroem-se incertezas nas fundações putrefactas daquilo a que chamamos de amor, aquele sentimento que julgamos sentir, que julgámos ter conseguido sentir, e sentimos, mas não o soubemos preservar. Fizémos tanto, dissémos tanto, chorámos tanto que acabámos por estragar o que tentámos construir.

Jamiroquai - Seven Days In Sunny June

Estou sentado no meu escritório a fumar o meu cigarro acabadinho de enrolar e que bonitinho que ele estava antes de o acender. Que bem que me sinto aqui, a janela está aberta na medida certa, tudo está bem.

- Boa tarde Inspector, posso?

Era o Agente Quatro e meio, pelo menos era essa a alcunha dele, o nome ninguém sabia por isso toda a gente o trata por 4,5.

- Claro que sim, força, faça o favor de entrar.
- Olá, boa tarde, vinha-lhe pedir um favor.
- Claro que sim, força, o que precisa?
- Bem, preciso de dois quilos de farinha, quatro ovos e a Lúcia disse-me que tinha para ai um resto de pudim já com alguns dias.
- Claro que sim, o que não falta para aqui é farinha e ovos, agora o pudim é não posso dar.
- Ui, mas eu precisava mesmo desse bocadinho de pudim sabe?
- Claro que sim, imagino que sim, mas repare 4,5, eu adoro pudim verde.
- Verde?
- Claro que sim, nada me agrada mais do que comer um pedacinho de pudim verde depois de fumar um belo cigarrinho acabadinho de enrolar.
- Aquele pudim? Aquele que está ali em cima daquela prateleira?
- Claro que sim, esse mesmo.
- Mas.. aquele pudim é amarelo, torrado, pudim.. amarelo torrado.. deduzo que seja de baunilha..
- Claro que sim, de baunilha sim senhor.
- Então mas o Inspector disse-me que gosta é de pudim verde, de kiwi presumo, talvez abacate ou lima, no entanto aquele é de baunilha, é amarelo, torrado, é de baunilha é amarelo e torrado, mesmo o que eu precisava para fazer os queques de morango.. não me o pode dispensar..
- Claro que sim, no entanto não o dispenso. Repare 4,5, o pudim apesar de estar amarelo, vai-se estragar, ficar verde, horrivelmente nojento, com um pivete quase insuportável a esgoto, cheio de larvas, de bolôr azul que lhe dá aquele toque quando a luz da lua incide sobre o copo onde se encontra o pudim e me ilumina o escritório com uma côr escarlate que me inspira a escrever sobre uma data de coisas sobre as quais não tenho opinião nenhuma e é por isso mesmo que eu, por muito que gostasse não o posso dispensar.
- Ora bolas, então e agora como é que eu faço os queques de morango? Prometi à Lúcia que seriam a sobremesa para depois do jantar, e eu nem quero imaginar o que me vai acontecer se a Lúcia não tiver os seus queques de morango para a sobremesa..
- Claro que sim, compreendo perfeitamente que a sua situação não é de todo agradável, aqui na agência todos nós conhecemos muito bem a Lúcia e digo-lhe, com a maior sinceridade que o meu corpo neste momento me permite disponibilizar que chego a ter pena de si caso não consiga fazer os tais queques de morango para a sobremesa, por isso leve lá o pudim homem, a escrita pode ficar para outro dia.
- Muito obrigado Inspector!
- Claro que sim 4,5, agora saia lá do meu escritório que eu preciso de escrever e esse seu bafo azedo a vómito de hiena desdentada com o cio faz-me uma confusão danada e não me permite sobre coisas que não faço ideia do que sejam.
- Então porque é que escreve sobre elas?
- Bem porque.. bem porque.. ora repare bem numa coisa Quatro e meio, estamos em que andar?
- Estamos no 3º andar Inspector!
- Muito bem, e quantos andares tem este prédio?
- Bem.. dois.
- Ora exacto! Não estamos propriamente num andar pois não?
- Bem.. não.. quer dizer.. não deixa de ser um escritório.. em cima dos outros.. enfim.. no telhado talvez..
- Claro que sim, no telhado, e o telhado é um andar?
- Bem.. pois.. hm.. suponho que não.. talvez.. pois, não, não é.
- E quantos escritórios há por andar 4,5? Mais de 30 não é? E em cada escritório mais de 20 pessoas, todas elas a escreverem sobre os mais variadíssimos tópicos, assuntos, temas, tudo coisas da mais alta importância para o estado, para o governo, para o pais!! 
- Em permanente actualização!
- Claro que sim, em permanente actualização!
- Pois é Inspector!
- Claro que sim, e em todos esses escritórios, todas essas pessoas foram contratadas para preencher um perfil muito especifico de maneira a desempenharem a sua função com a mais absoluta exactidão cientifica, politica, enfim, enfim, enfim, correcto 4,5?
- Correcto Inspector!
- Claro que sim, pois bem 4,5, eu suponho, sou um suposto Inspector, um Inspector da suposição, suponho sobre tudo o que os outros escrevem, sou eu quem gera as dúvidas, as incertezas, as questões, sou eu quem levanta certas causas pelas quais tantos lutam e só depois de sentirem a garganta a doer quando acabam a luta e chegam a casa cansados, exaustos, suados, com quatro ou cinco pastilhas para a gripe no bucho depois de terem estado o dia todo ao sol a gritar por um ideal, por nada, para nada, por um ideal ou ideais que eles julgam ou julgavam ou julgarão ser um direito, eu caio-lhes em cima como um raio, como um trovão, como um relâmpago, foda-se como um corrisco como se fosse um adolescente aos pontapés e grito-lhes aos ouvidos, um a um: "ESTÁ TUDO MAL, VOCÊS ESTÃO MAL, ESTÁ TUDO MAL, ELES ESTÃO MAL, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O VELHO IDEAL, VIVA O NOVO IDEAL!"
- Tudo mal inspector.. tudo mal.. é bem verdade..
- Claro que sim 4,5, eu sou a jurisprudência, a idoneidade, a identidade, a salvaguarda do estado, se o povo não lutar para que raio é que precisamos do governo? Como vai um governo governar se não existir desgovernação? Há que haver luta para governar! Há que haver sangue nas ruas para o que governa possa vir e salvaguardar a ordem, e segue e segue e segue e segue, e assim continuaremos até que você me traga a merda dos queques de morango porque já estou a ficar com fome.

sexta-feira

Pouco mais te posso dizer porque és-me muito mais do se possa dizer. Já passámos por tanto, às vezes parece que já passámos por demais, mas eu sei que ainda temos que passar por muito e é só a ti que eu quero a meu lado. 

Amo-te,


"I'm sin done in water
You might be over hill.

He's somebody's daughter
As far as Liz well knows.

Send me a black one
Other than a big sun
Open with a castrate
A mystery mind.

He sits her with father
We seem so in a two.


(...)"


MUITO! ^^
- Olá bom dia, Senhor Raul está por cá?

O Senhor Raul Bacalhau tinha apresentado queixa na esquadra porque um cavalheiro muito mal educado tinha ido à sua loja ofender mais de 89% da sua família, algo simplesmente inadmissível.

- Estou pois, estou pois meu caro, o que veio comprar? Se veio para ofender leva já uma lambada!
- Acalme-se Senhor Raul, o meu nome é Ribeiro Laranja, sou agente da autoridade anual, vim porque o senhor fez uma queixa sobre um cavalheiro muito mal educado.
- Ah! Ah pois fiz! - Disse o senhor Raul num tom escandalosamente irritante, não tanto pelo barulho mas mais pelo fumo que lhe saia pelas pestanas - E deixe-me que lhe diga, que já há muitos anos que não me lembrava de ter visto tamanha falta de educação!
- Isso compete-me a mim decidir senhor Raul Bacalhau, importa-se de chamar as visadas, para que eu as possa interrogar?
- Ah!  Ah pois claro que chamo! - Nisto, o senhor Raul solta um grito quase visceral, notavelmente feio e incrivelmente irritante, novamente por causa do fumo mas não propriamente pelo barulho: RAULINDA, TRAZ CÁ AS FILHAS!

Saíram todas, por um buraco muito pequeno, uma imensidão de corpos horrorosos e cheios de suor, notava-se claramente que tinham estado a chorar desde que o tal senhor muito mal educado as tinha ofendido. Tinham-se posto todas em linha, por ordem decrescente do lado esquerdo para o direito encostadas a uma parede cheia de latas sardinha vazias que estavam à venda, o negócio das latas de sardinha usadas era um negócio importantíssimo nesta parte da cidade.

- Bem, minhas queridas, sabem o nome do senhor?
- JUGÚSTAVO! - Lá estava aquele fumo e aquele barulho.. -
- E o segundo nome?
- NÃO SABEMOS!
- Não tinha segundo nome?
- NÃO SABEMOS! NÃO NOS DISSE!
- Senhor Bacalhau, se não se importa, prefiro falar consigo, esta fumarada irrita-me as orelhas e daquê pouco começo a tossir dentes que é uma coisa parva.
- Com toda a certeza!
- O Senhor Jugústavo não tinha segundo nome?
- Se tinha não nos disse.
- Sabe que, a verdade.. bem.. fiquei bastante intrigado quando fui assinalado para vir investigar uma queixa por má educação, porque, bem.. a verdade é que desde que me lembro de ter ganho o crachá de investigador nunca tinha ouvido falar um crime deste género porque no fundo, como bem sabe, isto é um crime e faz anos, anos.. que não havia um único crime nem neste lado da ponte, no entanto aqui estou eu.  - O Senhor bacalhau escutava-me com uma atenção incrível - Portanto Senhor Bacalhau deixe-me que lhe diga que..
- Sim! Sim! Ah sim! Por favor diga-me!
- O senhor Jugústavo realmente não é a meu ver, nenhum criminoso, nem me parece, sendo-lhe o mais honesto que o meu espírito me permite ser, mal educado ou mentiroso.
- Ui.. olhe que.. elá.. estou chocado.. não.. não estou a perceber onde quer chegar, o que quer dizer?
- Bem Senhor Raul Bacalhau, as suas filhas são, de facto, feias como a cornadura e eu vou ter que dar a investigação por encerrada porque se o senhor Jugústavo teve para consigo e para com a suas filhas alguma atitude a que o senhor não esteja habituado foi sinceridade.

quarta-feira

Sentia-me perdido, aliás sabia que estava perdido pois à mais de duas horas que andava à procura da mercearia do senhor Américo para comprar os atacadores para as botas do meu pai. Ainda não tinha decido parar para pedir direcções porque sinceramente, ainda não tinha encontrado nenhum sitio onde me parecesse que fosse possível obter direcções credíveis e honestas, pois como bem sabem, neste mundo de barbas todo o cuidado é pouco e eu fui educado a ter sempre o máximo de cuidado possível mesmo com o mais pequeno dos detalhes. Ao vaguear pelas ruas, que por esta altura do ano estavam cobertas daquelas horríveis aves migratórias que deixam o chão peganhento por causa das suas escarretas e o céu lilás por causa dos gases que emitem sempre que pousam nas chaminés que estão carregadas do pó da época festiva que celebra a morte do Aníbal Bravo, o nosso grande e ousado salvador, tive finalmente sorte quando encontrei um grande letreiro com letras enormes de néon azul, com lâmpadas amareladas à sua volta que dizia "Raul, o Rei do Bacalhau". 
Alguém que seja rei, será certamente a pessoa indicada para me dar as indicações que preciso. Entro na loja e rapidamente apercebo-me que provavelmente estou no sitio errado, havia sal por todo o lado mas nada de bacalhau. Aproximo-me do balcão e dou quatro toques no chão de madeira com a minha bengala feita de borracha e ferro enferrujado, tinha-me sido oferecida pelo meu avô que, no leito da grande regra me disse com os seus três olhos azuis: "Júgustavo um dia saberás que para além de matar baratas, esta bengala vai-te ajudar a cavar todas as aranhas que precisas." E morreu, feliz, porque o seu sorriso era bem maior do que as almofadas que lhe apoiavam as orelhas. 
Finalmente, através que uma brecha da parede que julguei ser apenas um buraco por onde passassem os tuberculosos, sai um homem com um porte fabuloso, alto, gordo, com quase dois metros de altura e 120 quilos, mas muito marreco, tão marreco que mal conseguia chegar com o queixo ao balcão, foi-me fácil saber a altura porque estava-lhe escrita na testa.

- Olá bom dia meu caro, em que posso ajudá-lo?
- Bem, eu estou à procura de atacadores.
- Pois bem, veio ao sitio certo?
- Ai vim? Então mas, o senhor não vende bacalhau?
- Eu vendo tudo, de tudo!
- Explique-me então como é que o senhor é o rei do bacalhau se só tem sal?
- Oh meu caro, como raios queria você que eu vendesse bacalhau se não tivesse o sal para o salgar?

A sua resposta escandalosamente clarificante fez-me dar uma dentada na bengala, quando já estava a chegar ao ferro, oiço uns passos pesados e vejo sair pelo mesmo buraco de onde saiu este marreco uma mulher ainda mais forte do que ele, enorme, com um vestido azul que mesmo com a pouca luz existente fazia com que me fosse muito complicado olhar para ela. 

- Uuuuuuuh Raul, o que temos nós aqui? Um cliente? Logo agora que só temos sal!
- Sabe minha senhora, eu na verdade nem quero bacalhau, só quero comprar atacadores para as botas do meu pai.
- Veio ao sitio certo!
- Já é a segunda vez que me dizem isso desde que cá cheguei e a verdade é que me custa muito a acreditar que tenha vindo ao sitio certo, porque na entrada indica que o seu esposo é o Rei do bacalhau e nem um bacalhau tem para amostra!
- Que perspicaz este belo rapaz! Oh Raul, fazia tempo que não tinhamos assim um vivaço, as minhas filhas vão adorar conhecê-lo!

Após dizer isto saem, pelo mesmo buraco 5 raparigas cada uma mais feia do que a outra e todas elas riam e choravam, dos seus três pares de olhos caiam pregos e pontas de papel de rebuçado, uma coisa parva para a vista mas ainda pior para os ouvidos pois o barulho que faziam fazia lembrar o de um cardume que vem à superfície em busca de comida e é devorado pelos caniches asas curtas, tentei ser o mais cordial, o mais gentil possivel na escolha das minhas palavras e disse:

- Puta que pariu! Cada uma mais feia do que a outra, eu a pensar que você era feia mas, Santo Anibal! Depois de ver estas cangalheiras fiquei com uma vontade de largar uma bela poia de merda no meio deste sal, podia ser que ao menos trouxesse alguma cor a esta loja de merda!

Sai da loja, estava farto do cheiro, do barulho, da escuridão. Senti-me imediatamente sozinho, porque, sinceramente, naquele ambiente pútrido senti que a minha feiura não tinha sido questionada mas por breves momentos adorada. Quis voltar mas sempre me ensinaram que o passado não empurra a água, apesar de eu nunca ter percebido este ditado que as velhotas desdentadas costumavam dizer à minha mãe na altura da apanha da farinha.
Segui por uma rua iluminada porque o meu senti o meu corpo levar-me para lá, a rua estava a vibrar de gente. Estava impregnado no ar um cheiro a uma mistura de perfumes, de polpa de tomate, de palavras falsas, de amor, de romance, de ódio,  paixão, tudo misturado, palpável, vendia-se aliás em pequenas bancadas de limonada de framboesa pequenos frascos da fragrância "Cheiro Mome", era o nome que se dava ao cheiro que impregnava as ruas nesta altura festiva. Dizia a lenda que, quando o nosso grande salvador, o Anibal, derrotou os cavaleiros da fortuna e os trouxe à praça do povo e os obrigou a beijar os pés a todos os que sofreram de acordo com os seus caprichos, disse-lhes:

"Vocês, reles e sujos,
Despojaram-nos a alma
Vocês, reles e sujos,
Fizeram-nos que somos menos

Vocês, cobardes e feios, 
Minaram-nos o feitio
Vocês, cobardes e feios,
Tornaram-nos melhores

Somos agora melhores, depois de anos a ser inferiores
Visto que tudo o somos somo-lo sem vós
Somos agora melhores porque sabemos ser superiores
Queremos agora viver ao sabor dos nossos avós

Vamos viver, gritar, correr
Vamos chorar, gritar, gemer
Vamos amar, vamos comer
Vamos sofrer mas vamos vencer

Encolham-se na vossa figura, deixem-nos viver
Porque jamais vamos nós voltar a negar aquilo que fomos
Percebam que são vocês menos, e nunca o contrário
Porque jamais vamos-nos voltar a dobrar sobre aquilo que somos"

Foi com este poema que o Santo Aníbal, o nosso salvador, derrubou o poder do vicio e conquistou o povo. Um homem grandioso, um exemplo, o alcoólico mas no entanto um herói, porque independentemente do vicio, sabemos nós, todos nós sem excepção, que as grandes almas têm grandes vícios. Cheguei sem os atacadores, o meu pai apercebeu-se logo que eu não os tinha trazido e assim que pus um pé dentro de casa perguntou-me:

- Então rapaz, que cara é essa?
- Bem pai, acho que vais para a tropa descalço.

segunda-feira

Sou todo um mundo que paira sobre uma tamanha ilusão do que é ser gente. Sei que só quero sentir e amar, beijar uma folha que me conte tudo sobre o amor. Cada vez mais acredito que uma das grandes mentiras foi terem-nos tirado a ideia, à grande maioria de nós, de que a imagem que temos de Deus deve ser formada por nós à medida que crescemos, que caímos, que sofremos, que choramos, que rimos, que aprendemos e ensinamos, e não por desconhecidos cujas intenções desconhecemos. Cada vez mais acredito que para mim Deus, mais do que uma personagem divina que criou as mais belas imagens é simplesmente o amor que sentimos por alguém quando um abraço afasta qualquer mágoa que até então sentíamos que ia perdurar para sempre. 

Eu não sei do que falo, não sei o que digo, sei que o sinto e o resto, deixo que venha, que se solte em mim, por acréscimo, a cada dia como se o tempo me dissesse: "Sabes, eu não paro, eu nunca parei e eu nunca vou parar." 

Resta-nos aproveitá-lo.

Preguiça

É na preguiça, quando me lembro daquelas tardes preguiçosas que às vezes adormeço a pensar. Com os meus pés no ar, vivo e cuspo fogo, tento e giro, giro às voltas com todas as minhas certezas e incertezas incertas cheias de cordas feitas de bambú, porque eu hoje aprendi que gosto muito dessa palavra, e repito-a até deixar de fazer sentido. Lembro-me de estar quieto, sossegado sem muito em que pensar nem muito com que me preocupar. Vá lá, tu consegues mais do que isto, tu és muito melhor do que isto, quando pensam que de alguma maneira me ultrapasso e me revelo quando escrevo o que penso, quando digo aquilo que escrevo, quando o que escrevo parece revelar alguma parte de mim que nem eu próprio conheço, é agora que vos digo que tudo o que até hoje escrevi veio de pequenos toques, por pequenos detalhes que eu não fiz, que eu não criei, que já lá estavam, eu simplesmente tive a sorte de estar no sitio certo pronto para os admirar. Eu não procuro ser mais do que sou, nem procuro passar a imagem que de procuro ser mais do que sou, eu sou simplesmente e limito-me a existir, tal como qualquer outra pessoa, simplesmente tenho como passatempo, de vez em quando, quando posso e me lembro, de escrever o que os dedos permitem. 
Se eu pudesse pedir algo, se por algum acidente no tempo me viesse parar às mãos a capacidade de pedir algo que estivesse fora dos limites da nossa realidade o meu maior desejo seria neste momento, parar, parar simplesmente tudo com um toque mágico, deixar que este dia se prolongasse por vários anos, sem que uma única pena se mexesse em tempo algum, para que eu pudesse ter tempo de aproveitar no pouco tempo que me resta tudo o que nunca vou conseguir ver, apreciar, sentir, cheirar, de outra maneira. Que egoísta da minha parte pensar desta maneira, e que gozo que me dá pensar desta maneira.
O meu maior pecado é ser egoísta, admito, e sou egoísta porque consigo ser ainda mais preguiçoso do que egoísta, e a verdade é que por muito que gostasse de mudar esse traço, sou demasiado preguiçoso para o fazer, portanto aqui me vou mantendo, egoísta e preguiçoso, enquanto trago sofrimento a alguém que devia amar e que, na minha enorme sapiência, consegui fazer com que me odiasse. Ainda não consegui perceber de que modo é que a raiva se alimenta. Julgava ser uma pessoa cuidadosa, que se procurava, mas tenho vindo a aprender que se dependesse de mim, metade do mundo morria à fome.
Eu não tenho vontade nenhum de comprar uma arma para começar uma guerra, quando muito, comprava uma arma para acabar com uma guerra. Meu amor, desculpa todo o mal que te causei, se pudesse, tirava de mim o tempo que perdeste e dava-to a ti, acredita que sim, mas não o consigo fazer. Sei que as minhas desculpas não servem de nada, por isso a única coisa que te posso prometer é que me vou retirar de maneira a que a imagem que ficas de mim seja melhor do que a que tens neste momento,
Perdi a oportunidade e o tempo de, através da única regra que sabemos que toda a gente cumpre, de me aproximar de alguém, que, apesar de me ter dado vida, nunca fez parte dela da maneira que eu julgava ser certa ao contrário dos olhos de quem me ensinou e educou. Ainda não encontrei uma descrição sobre a morte que me faça sentir mais confortável sobre ela, no entanto, desta vez vi que a morte é uma oportunidade para quem vai de ter o direito de ser recordado e para quem fica o dever de fazer o suficiente para que quando morra, faça com que quem acabe por ficar se lembre de quem foi com um sorriso.

Plano de atitude

Sonho perdido e corro à procura de ouvir quem sou. Por vezes, dizem-nos o que somos, quem somos, o que fizemos, e custa-nos a aceitar porque temos muita dificuldade em aceitar que aquela imagem que mostram de nós pode ser muito mais verdadeira do que aquela que julgávamos ser a verdadeira, a que criámos sobre nós. 
Eu não me lembro que escolhas fiz no passado que me levaram a ser a pessoa que sou hoje. Tinha a convicção de ter feito muitas escolhas certas mas cada vez mais, parece-me que caí sempre no erro de escolher as erradas. Porquê? Porque eu sei lá, porque provavelmente julguei estar a agir da melhor maneira, porque provavelmente na altura em que as fiz muitas das minhas idéias e ideais eram bastante diferentes.. e não é isso algo perfeitamente normal? Não faz isso parte do processo que é, crescer, uma normalidade? Anormal seria, julgo, não pensar nisso. 
Se me dou ao trabalho de parar para pensar na pessoa que sou, na pessoa que me tornei e consigo ver que falhei em quase todos os aspectos que até à muito pouco tempo julgava.. sei lá. 
Isto, no fundo, nada mais é do que um desabafo, porque eu sinto que quando escrevo distancio-me de mim e isso traz-me alguma tranquilidade. Isto, isto, isto não é um caso raro, nem um caso de excepção, nem um caso que suscite qualquer tipo de preocupação, isto, isto é uma análise que eu tento fazer mas que tenho muita dificuldade em aprofundar, em chegar a algum lado, porque faltam-me as forças para descobrir uma melhor maneira de o fazer. Por mais que tente, por mais que grite e chore, nunca julguei um dia ficar sem palavras para expressar o que sinto quando falo de mim, do que passo, do que passei, do medo que tenho de não saber como lidar com aquilo que muito provavelmente sei que vou passar. É curioso sentir que no fundo, é o medo que me dá medo, e é nesta conclusão que me apercebo que sendo apenas o medo, o meu obstáculo primário, ser-me-à muito mais fácil ultrapassá-lo sabendo que fui eu que construí esse receio, e se o fiz, sozinho, será também sozinho que o vou derrubar e ultrapassar.



"Ao fugir da própria vida, Sem correr e sem saltar, Oculto sangue que tenho para dar"
- Sangue Oculto, GNR

sexta-feira

estou apenas à espera de um segundo em que hesito e penso que não consigo mais esperar pelo que julgo ser um pouco de loucura em forma de pacote de açúcar. divagações à parte, detesto café sem açúcar, fico sempre com um arrepio na espinha quando provo algo amargo, e no entanto cá estou, amargamente frustrado por ainda não ter conseguido entender como raio é que aquelas plantas carnívoras parecem ser muito mais inteligentes do que eu sempre que as vejo na televisão. felizmente para mim existem tantas provas de que há tanta vida muito mais parva do que eu e isso faz-me sentir aliviado. eu não gosto de escrever, entreti-me à relativamente pouco tempo a reler muito do que escrevi e metade não me lembro de ter escrito, sinceramente, se me mostrassem muitos dos textos que escrevi e me dissessem que eram meus, eu provavelmente ofendia a pessoa com todos os nomes que me ocorressem na altura. aliás, acabei de ler o que escrevi e se alguém agora me dissesse que tinha sido por mim eu atirava-lhe à cara o router da NOS.

eu não gosto de fazer piadas, nem me julgo engraçado no entanto acredito que tenho pinta de comediante. porquê? bem, porque convenhamos, todos os humoristas portugueses ou são gordos, ou feios, ou têm uma voz extremamente irritante e eu sou uma mistura desses três factores: gordo, feio e com uma voz irritante ao ponto de não ser o ressonar que incomoda a minha parceira à noite mas sim quando lhe pergunto - na variante mais doce que sou capaz de fazer com a minha voz - : "Amor, passas-me a garrafa de água?". 

eu não sei porque escrevo, honestamente que não sei. já não me lembro porque comecei a escrever. lembro-me de tanta coisa mas disto não. lembro-me de um amigo uma vez me ter dito que me repetia, muito, que falava sempre do mesmo da mesma maneira, que cada texto meu parecia uma cópia dissimulada do anterior e que por vezes quase que conseguia adivinhar sobre o que eu ia falar no próximo texto. eu agradeci-lhe por ter tirado tempo precioso da sua vida vagabunda para ler algo que eu escrevi e eliminei-o dos contactos do MSN. pessoa detestável. como assim repito-me? claro que me repito, a vida é feita de repetições, quantas vezes não demos por nós a desejar repetir uma determinada experiência? eu fazia isso em cada novo texto e aquele desgraçado teve a lata de criticar a minha infinita sabedoria e sapiência? puta que o pariu!

bem, mudando de assunto, vamos voltar ao que estávamos a falar. se bem que.. estou só a divagar.. e como adoro divagar! voar neste mundo cheio de parcas palavras, tão cheio de emoções onde apenas o luar me consegue adormecer ao som dos grilos e o que raio é que se está a passar quando não consigo sequer encontrar um pretexto para escrever, onde cada palavra que me sai é apenas um ruído, sim um ruído a mais neste ensurdecedor mar de sentimento de frustração que me assola, que me leva a dirigir este, este, este.. este singelo rumor. este pequeno e frágil rumor de que mais não sou, de que mais não passo do que um suspiro nesta bela estória de amor. 

se fossemos todos mais capazes, mais verdadeiros, mais sinceros, honestos, belos, menos gordos, mais altos, atarracados, com verrugas, somos o que somos e porque é que temos que estar constantemente a pedir desculpa por isso como se aquilo que somos não fosse suficientemente bom, ou capaz, para sermos apenas gente e sermos aceites como pessoas válidas, dispostas e disponiveis para amar, para errar? porque é que não podemos errar? porque assim não havia necessidade de excelência. se continuarmos a refugiarmos-nos em clichés do género "errar é humano" , o que se faz à excelência? se não formos excelentes no que fazemos para quê sequer abrir os olhos todas as manhãs? ou noites? ou à tarde a seguir ao almoço se formos espanhóis? e quem é válido para exigir tal excelência? e porque é que a temos que atingir diariamente? e porque é que temos que pensar nestas coisas? e porque raio é que não podemos aceitar que aquela pessoa é preguiçosa e que isso faz parte da maneira dela ser e que, ela ao ser já o é e que talvez por pressão de outro alguém se esforçar por deixar de ser preguiçosa e deixar de ser, de existir? pergunto isto porque, se o é, se existe assim, ao deixar de o ser não deixa também de ser quem é por, talvez, capricho de outro alguém? pela necessidade do outro alguém exigir que se mude, que se modifique um - basta um! - traço da sua personalidade para ser mais fácil simplesmente ESTAR, comigo? contigo? não! basta! é um exagero sequer passar pela cabeça de alguém querer que outro alguém mude algo, seja o que fôr! SEJA O QUE FÔR! para se conseguir ter qualquer tipo de relação com essa pessoa. manipulação! covarde! 
é esta angústia, esta falta de respostas que me tiram o sono à noite, não é o café, o café ajuda-me a ficar acordado enquanto procuro respostas. vou tentar sintetizar:

- é certo, ou justo, pedir a alguém - directa ou indirectamente - que mude por nós?

e eu não me refiro a assassinos, a alcoólicos, a toxicodependentes, a ninguém com vícios semelhantes que claramente ponham em causa qualquer tipo de relacionamento, refiro-me a traços que fazem parte de nós, traços naturais que cresceram connosco e que nós crescemos com eles, que fazem parte de nós com os quais nos identificamos, que nos fazem SER quem SOMOS, simplesmente por SERMOS NÓS PRÓPRIOS! PRÓPRIOS! Definição de próprio: QUE PERTENCE EXCLUSIVAMENTE A ALGUÉM! JESUS FODA-SE FUCKING CHRIST! EXCLUSIVAMENTE, A ALGUÉM! FAZ PARTE DE MIM!

Acabo, assim, a rir-me de mim.

Porquê, querer mudar algo nosso, para que correspondamos ao que esperam de nós? Se me conheces, se sabes quem sou, não queiras que mude, aceita-me, se não o fizeres lembra-te que também eu demorei muito tempo a aceitar-te, que também eu não sou excelente, nem perfeito, tal como tu e como toda a gente sou apenas único, porque não há ninguém igual a mim, nem a ti, e a beleza é essa, no meio desta cambada toda, sou único, somos todos, todos, únicos, e é tão giro chegarmos aqui. tento aceitar quando me dizem que sou de determinada maneira porque quando existo disponho-me a ser julgado por quem me vê, por quem conversa comigo, por quem lida comigo, são os outros, através da experiência que têm comigo que têm o direito de me apontar o dedo quando erro, e aceito esses erros porque errar é definitivamente humano e eu não procuro excelência. procuro liberdade para ser quem sou, para existir, para crescer, para tomar poucos banhos, para chorar, rir, amar, comer, ensinar, crescer e aprender. 

Não existo se não souber quem sou. Não sei na verdade quem sou, cada vez mais sinto-me perdido em mim próprio. São todas estas incertezas sobre a minha pessoa que muitas vezes não me deixam ver para além delas. Ainda não encontrei em mim muita coisa gostasse e isso assusta-me até um certo ponto porque cada vez mais sinto que vou encontrar em mim menos coisas que possa vir a gostar, e se é assim que me sinto, é impossível ter uma relação com alguém porque sei que,  não estando bem comigo mesmo nunca vou conseguir estar bem com mais ninguém. 

Não era bem assim que queria acabar o texto mas sinceramente não me lembro porque é que o comecei. Se alguém me acompanhou até aqui, obrigado. Todas as minhas noites são assim quando me vou deitar, é nestas merdas que penso, é desta maneira que penso. Se me mostrassem este texto e me dissessem que eu tinha sido escrito por mim, desta vez acho que acreditava.