segunda-feira

Um dia li

Nada do que sinto se enquadra naquilo que penso, nada do que sou vai ao encontro daquilo que quero para mim.
Já não consigo ver qualquer virtude naquela pessoa que sou quando acordo, por mais curioso que seja, é quando durmo e me mantenho de olhos fechados que me apercebo que nem assim consigo encontrar qualquer justificação para os meus vícios, para os meus maus hábitos, para a minha terrível maneira de ser. De olhos abertos, limito-me a deixar a luz entrar para não cair na tentação de me continuar a culpar, os olhos só fecham quando têm que fechar mas admito que cada vez mais custam a abrir.
Tento apreciar a beleza, da maneira que eu a vejo, tento encará-la como algo fascinante que me proporciona calma, conforto. Encaro esta minha teimosia com a maior das normalidades, a mim não me afecta mas a quem convive comigo, transforma a sua vida em terror putrefacto, ansiedade, incerteza e insegurança, e eu, pergunto-me, se a culpa será minha ou da beleza.
Durante muito tempo procurei tranquilidade, estabilidade, durante muito tempo fechei os olhos à razão que me dizia que nem uma nem outra se encontra, conquista-se, e que por norma, trabalha-se muito para a conquistar.
Não quero nada de mão beijada, não quero sentir que conquistei o que conquistei porque o destino estava distraído, quero sentir, quando estiver sentado a olhar para o que fiz e para o fui, que tudo o que de bom conquistei, foi fruto do meu esforço.
Quero que ele seja feliz, que se sinta preparado, que não sinta qualquer tipo de dúvida quando precisar de chorar e não saiba a quem chamar, eu quero estar lá, eu vou estar lá.
Basta-me saber que ele sabe que pode contar comigo, e um dia posso fechar os olhos e deixar de me preocupar se as minhas virtudes são menores do que os meus vícios.

e assim vou vivendo

se tudo fosse como apenas um escudo que nos protege, tudo seria mais fácil, dilatava-se a nossa vantagem perante os outros. mas eu, tal como tu, choro, e sinto que me faz falta sentir as cócegas que aquelas pequenas gotas me fazem quando me caem pela face, rejubilo quando o sabor salgado me toca nos lábios e me sinto vivo.

e eu, que tanto procuro e canto e grito, digo-te amizade, também eu, tal como tu me sinto cansado, farto disto tudo, encantado por poder viver esta vida neste tempo onde cada vez menos menos tempo temos para simplificar, para adorar, para amar,

queria parar de suar, de sofrer, vem esta força que me engole todo o ego, vem esta raiva que me alimenta o sossego, digo-o, como já aqui o disse e volto a dizê-lo que é nas hostes do sofrimento que encontro sossego, não me cansarei de o repetir porque não me sai da cabeça.

arranho a cabeça, afogo-me em dores de parto, desfaço-me naquilo que não posso, naquilo que não quero, procuro dar à alma aquilo que ela me pede mas peco e dou-lhe tudo o que não devo, dou-lhe cortes e ela teima em não cicatrizar, teima em fazer-me sentir vivo para que eu, tal como ela, possa sentir o quanto dói quando não temos o que queremos.

e oh, meu mundo azul, eu choro quando me lembro de ti e não estás ao pé de mim, é quando te vejo a dormir, naquela calma que só tu me trazes que eu me sinto feliz, e acredita menino, vivo para ti.