sexta-feira

não é nem nunca será mais do que um.. mais do que um nada, bardamerda para isto. mais um cigarrinho mais uma beata que se arma em carapau de corrida... e ris-te, ris-te que nem um parvo porque não te apetece fazer mais nada. e é desse nada meu rapaz que vai nascer, florescer, aquelas ânsias pelas quais tanto anseias e mais uma vez, agora sem mero acaso algum não consegues parar mesmo de rir, torna-se mesmo insuportável ao ponto de te começares a cortar por não conseguires suportar o barulho estridente do teu riso parvo, estúpido, simplesmente otário e tens então uma visão em que te vês a ti mesmo, sozinho num quarto em que o tecto está pintado de um azul esverdeado, as paredes cobertas de um papel de parede com um padrão aos quadrados e todo o quarto está repleto de quadrados azuis e cinzentos divididos por uma pequena linha preta, o chão é de tijolo e tu achas estranho o chão ser de tijolo porque lembras-te que quando aterraste no quarto depois de teres caído do candeeiro em forma de ovo pareceu-te teres caído em cima de um monte de almofadas de seda cheias até à boca de penas de papagaios, olhas à volta em busca de um ponto de referência que acenda uma luzinha no teu cérebro para tentares perceber onde estás e isso faz com que penses mas o que pensas é refletido como se a tua cabeça estivesse oca e os teus pensamentos ecoassem lá dentro e tu assustado com essa ideia começas a fritar, começam a passar-te pela cabeça toda uma imensidão de ideias parvas que no fundo fazem imenso sentido mas que não te ajudam em nada porque continuas sem saber onde estás ou porquê e começas a ouvir algo a estalar e rapidamente percebes que és tu que estás a estalar, é a tua cabeça que está a estalar quando reparas que a tua orelha caiu e se partiu em mil bocados como aquela jarro de porcelana que partiste à tua avó quando tentaste roubar o frasco de mel e tu não sabes porquê mas sentes uma necessidade súbita de te atirares para o ar e caires no chão e é isso que fazes e o que acontece é que ficas espalhado pelo quarto todo, acabaste de te partir em mil milhões de biliões de bocados chavalo, estás completamente partido, todo fodido, estás louco estás maluco estás passado tu estás a dar cabo de tudo em ti tu estás meu deus tu estás completamente fora de ti de alegria, e por esses mil milhões e biliões de bocados de ti começa a efervescer alegria uma alegria que só te lembravas dela como um sentimento que sentiste quando eras pequeno, sabias que a tinhas sentido mas não te lembravas do seu sabor e é um sentimento tão doce, as saudades começam a apertar e começas a chorar começam a cair do tecto lágrimas de porcelana que se estilhaçam em mil milhões de biliões de bocados assim que tocam no chão de tijolo no meio de tantos choros e de tantos estilhaços o barulho começa a tornar-se ensurdecedor e começas a gritar e das janelas saltam os gritos e começas a espernear e a esbrecejar e todo o quarto se mexe como se fosse um átomo, um simples átomo tranquilo, calmo e sossegado e com essa ideia começas a adormecer ao mesmo tempo que começa a despertar em ti a ideia de que não és mais do que uma possibilidade e o que te assusta não é viver. vais viver e vais morrer.

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