sexta-feira

Não sei quem disse que mais não sei do que só aquilo que sei mas sinceramente acho que devia estar a apanhar tão maior seca do que eu, o tempo não ajuda, sendo ele em excesso a cabeça não pára e pensa no que não deve, os amigos torna-se vilões com as suas atitudes falsas e que se vão tornando mais cínicas sempre que pensamos nelas, e tanto tempo temos para pensar nelas. Serei a única pessoa que quando escreve sente todo um mundo de cor a mudar conforme o que se vai escrevendo? À medida que vou transpondo - ou expondo - o que sinto, de acordo com o que vou escrevendo parece que todo o meu corpo se ressente numa cor diferente, crua e preta e estagnada quando quero muito cuspir uma sensação ou uma emoção que persiste em agoirar-me o espírito, começa a desenrolar-se uma espécie de nuvem fogosa que vem com a cor em si à medida do que vou escrevendo do que sinto ou do penso sentir, eu talvez não sinta o que escreva, talvez escreva apenas o que o eu é num determinado momento em que sentiu necessidade de escrever, talvez eu seja apenas um mero instrumento do meu pensamento para vos dizer que o eu tem algo para dizer, que o eu passou por algo, no fundo, as cores vão mudando à medida que vou escrevendo, se me pedirem uma paleta de cores, com matrizes de acordo com o estado em que o meu espírito se encontro não vos posso dar, acredito que cada um tem a sua roda de cores, a sua fantasia, o seu rodopio espiritual onde cada nuvem, cada nevoeiro, cada jangada fora de água tem o seu significado e onde em cada conto arrancado do eu ou do espírito ou simplesmente do nada tem o seu significado, a sua espécie de dom torna-se então numa confusão danada onde ninguém percebe onde ele quer chegar e, tão pouco ele sabe se algum dia chegará a algum lado, começam a aparecer então as questões sobre a viabilidade dos seus contos. Serão reais? Estará ele a dizer a verdade? Pois bem, serei eu real? Existo eu? Enquanto pessoa ou enquanto sonho? Serei eu o fruto de alguém que me quis ou a triste figura de alguém que todos os dias se esforça por melhorar? É complicado trazer para tão pouco espaço onde o espaço implica, no raciocínio que proponho que se siga tudo, e partindo do principio que tudo é o espaço que quero para que a lógica consiga seguir a sua linha, vamos partir de que nada do que disse até agora existiu, mas existirá só e quando tu te aperceberes que isto está cá. Para mim, no meu tudo, no meu espaço que eu acabei de construir isto é meu, isto é o que eu sou e o que eu quero que seja, para ti nesse lado, a olhar para mim agora com olhos de príncipe abandonado perguntas-te quem serás, quem és, em que espaço te encontras e de que maneira vais mostrar aos outros que o teu espaço, aquele que tu sempre achaste ser teu e apenas teu tem espaço para mais alguém?
Fascina-me não poder dar a ninguém a visão de quem sou sem que trabalhe para isso, não posso obrigar ninguém a aceitar tudo o que daí advém não só por falta de submissão mas também de preparação, de obstinação de uma ideia que seja plausível, mas certamente não é o plausivel que se procura ou que se pede aqui, neste caso talvez seja apenas a compreensão e a força de saber que se pode dar e não se pedir, no entanto eu peço que vejam, vejam tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo o que quero que vejam que posso consigo ser ou vir a ser, perco o raciocínio e a lógica num espaço que é meu, procuro, vasculho nas mantas das memórias tudo o que sou mas não encontro mais do que um velho cinzeiro cheio, cheiro a abarrotar de cigarros mal apagados, ninguém neste tudo é o fumo de ninguém no entanto não admito que ninguém me diga que não posso ser a queimadura que arde dentro de alguém, será a paixão ou a ilusão de saber que sou amado, que consigo amar, que um dia vou ser apreciado não pelo que escrevi, não pelo que fiz ou disse mas por ter sido mais um que por cá passou, na reflexão da dor que agora passo pela incógnita que passei de não saber em que universo me sentia seguro, apercebi-me de que em todos no espaço que encontrei em cada um, foi nesse espaço, independentemente do tamanho que encontrei mais do que segurança alguma paz, não implica que o universo seja imenso, pode nesta lógica, neste meu todo seguindo ainda a minha linha o espaço ser maior do que o universo que procuro demonstrar, na senda da vitória sobre o meu tempo, espaço e universo, tento cada vez mais procurar um certo lugar onde o conforto é ordem, advenha ela do caos em que nada se irá seguir a conjuntura que pretendo ou a ordem em que espero que tudo corra bem, que seja apenas confortável e me dê forças para continuar nesta espécie de cruzada pessoal no meu espaço, no fio destas linhas que eu crio sem noção ou necessidade, talvez por afecto a alguém que desconheço e que no fundo acabo invariavelmente por ser eu essa pessoa.
Mas o eu é sempre tremido, é sempre um caso a descortinar, nem sempre é o eu que pretende que se siga neste espaço, à vezes o espírito sente-se mais incomodado do que eu e são raras as vezes em que me apercebo de que foi o eu que influenciou o espírito do que o oposto, poderei concluir que sem espírito o eu não se apercebe e a alma não funciona, sem cor a alma não reage o espírito não pensa e o eu não se manifesta, é a verdade que me dá luz , é no fundo a luz que me dá cor à alma, paz ao espírito e conforto ao eu.

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