domingo

Noites brancas

Ai de mim que procura agora um fim, escrevo num agoiro em que me regozijo com a esperança de que a cada letra o tempo passe depressa, rápido e bem. Mas não, não mando no tempo e lá vai ele andando sem que eu possa tomar algum crédito por isso, só pela escrita e talvez nem isso.
Não me sinto capacitado para entender o espaço do Vergílio , como pode ele usar tanta palavra não sabendo que por cada uma delas se deu mais ao mundo do que meia virgula dilacerada por algum tipo de carne mal assada, mais uma vez, agora tornando-se quase um padrão da minha parte, o que escrevo não tem sentido, disse-o Vergílio, só a escrita existe.
Pegando nisto, existo, mas confuso. Sub-alterno do meu próprio prazer, vivente, adaptado, enamorado até mim, ou para mim, por meios que desconheço e ignorantemente procuro ignorar.
Mas não! Ignorante não! Saber não sei, que quero sei, não sei é onde procuro chegar se não souber onde procurar. Em pouco tempo, pequeníssimo espaço de tempo literalmente tendo em conta que o meu tempo é o mesmo que o universalmente conhecido como nosso, vou cavalgando nesta tinta sem rédeas, onde deixei de ser o senhor passando a ser mais um obediente e fiel apaixonado desde modo de vida, desconhecido, favorecido por ondas passageiras que tão depressa se esbatem na foz como desaguam numa tagarelice ímpar e infundada.
Seguindo a lógica, esta, produzida agora com o apoio de vós, sou eu agora, aqui, com vós, que me dou a conhecer aprendendo a cada olhar que também vós se questionam sobre ser.
Não me reconheço apenas como Ser na escrita, mas em todas as manifestações que implicam o meu Ser, é através da escrita que se produz um canal para minimamente tentar conseguir descrever quem sou e o que sinto, embora, frustradamente, não sei o que sou.
Nem sempre a luz me auxilia nestes disparates, por vezes acaba por escurecer mais do que iluminar, ofusca-me o caminho do Ser, pretenciosamente ou não, fica por saber.
Pois, nada se perde, logo tudo o que manifesto enquanto Ser, tem que, ser aproveitado, logo a eternidade torna-se, assumidamente, possível, se não mesmo imprescindível para que não só o meu Ser se manifeste naquilo que conhecemos por "conhecimento universal" como não poderei perder nunca tudo o que fui e lutei por e para ser um Ser, que manifestamente se exprime agora por letras daquê pouco por nada, vagueando no insustentável e no invisível, numa realidade sub-alterna àquela que vejo não só como reflexo de mim numa estrutura qualquer.
Existiria não sendo escrita? Prevalecerá a ideia de que não sendo eu homem, apenas escrita, manifesta-se o Ser, o meu Ser, na figura de homem, e nunca o homem como Ser. É o homem Ser porque a escrita o permite, SERá o Ser homem porque a escrita o permite, que SERia eu sem a consciência e o conhecimento de que posso um dia Ser alguém?

sexta-feira

Texto de um menino

Embrenhado num ódio já característico tornam-se duvidosas as nossas reacções perante os outros. Conhecemos alguém? A esperança média de vida é de 70 anos, ou à volta disso. Temos realmente tempo de conhecer alguém? Hoje estuda-se e sempre se estudou personagens que marcaram a história humana. sabemos quem foram e o que fizeram, conhecemos os contributos que deram à humanidade, sabemos quem foram mas quem eram?
"Está morto, podemos elogiá-lo" - Disse-o Marco de Assis. Morreu Saramago, exilou-se em 1993 ao sentir que o governo do seu pais não o queria mais por cá, morreu Saramago e não há boca que não o elogie, assim se vê a hipocrisia de um pais.
Numa breve conversa com a minha avó, apercebi-me que não a conheço tão bem quanto julgava conhecer. Uma matriarca à antiga, dedicada, educou-me e valorizou-me enquanto pessoa e alma, e passou por dias que experiência só as tive nos livros de história. "Vejo que está tudo melhor, há agora tanto açúcar" - Disse-me. Quando era mais jovem, em tempos de guerra, caminhava quando sabia que havia, centenas de quilómetros mais a sua irmã para irem buscar um pão, que daria, tinha mesmo que dar para mais do que uma semana. Como alternativa, punha num cesto de verga um tacho, e ia para a porta do matadouro, esperançosa de que para ela ainda restasse algum sangue de boi. Cozia-se no mesmo tacho que serviu de transporte, juntava-se água e sal e esperava-se que engrossasse. Já grosso, cortava-se às fatias e fingia-se de pão, outros tempos.
Este é só mais um planeta ao qual os humanos deram os louros da sua criação a um Deus, que raios? Qual a razão para ter criado Marte? Terá criado Marte? E se criou com que propósito? O único que vejo é o de fantásticas imaginações para guionistas e investigações para cientistas. Nada mais. Peguemos num exercito, onde a doutrina é tão explicita que uma massa de gente se exalta com as ordens de um superior, seja comandante ou general, é ele o sábio que conduz um mar de gente com as suas ordens e mandamentos nunca posto em causa, associemos essa manifestação de comportamento à de uma religião. Se fosse sabida a Verdade mais cedo, talvez a ideia de que um homem, com duas placas e 10 mandamentos, figura da terra ou de um Deus que criou Marte sem razão não tivesse tanta atenção.
Somos escravos subtis num campo aberto de vicios materiais, trocamos o nosso tempo por notas e moedas que mais não fazem do que representar um determinado valor, estamos a contrato com entidades que nos exigem o que aos seus não desejam, somos usados por patrões que acreditam num sistema desmoralizador para o espirito, vemo-nos obrigados a confiar mais no que os outros nos podem dar, do que naquilo que podemos fazer por nós próprios, por nós próprios, por nós próprios, semeando e colhendo o que precisamos e não o que desejamos. Somos levados pelos veios, transportados para as vicissitudes carnais, imorais, mas ao domingo, procuramos perdão junto de um Deus, que tendo criado tão belo planeta, encontrou num homem e em duas placas de pedra a maneira ideal de comunicar aos seus "a-fim-de-ser" fiéis súbditos a sua doutrina.
Engraçado, apelidamo-nos de superiores perante os outros animais, mas somos nós que no fundo mais provas de inferioridade damos. Nunca uma espécie fez tão pouco por merecer este cantinho no Universo. A nenhuma conclusão pretendi chegar, vejo-nos tão encalhados em falsas razões e verdades, vejo-nos tão presunçosos, tão pouco ambiciosos, deverá partir de casa a mudança e a revolução, não será Deus que nos salva, não será Deus que nos salva-guarda, é apenas uma imagem, é essa imagem que tem que mudar, somos nós que cá estamos que sofremos pelo que fazemos, cabe-nos assumir uma postura diferente, pelo menos tentar pouco a pouco apreciar. O quê, a cada um lhe tocará saber, da mesma maneira que o quando a cada um acabará por tocar, e é pelo tempo que nos ficamos, acaba por ser pelo tempo que cá estamos.