domingo

Amo-te a custo zero

oh o terror, aquele pavor, escrevo outra vez sem nexo ou rumo, acordado e atordoado tal acéfalo pedrado, das origens do senhor aparece-me a questão pertinente de mais uma vez não saber com quem me dou. valerá a pena continuar a tratá-los como amigos? pergunto, porque ninguém sabe como estou, já ninguém sabe quem sou, têm uma ideia mas isso não me chega. preciso de segurança preciso que alguém me diga que sabe quem sou e que não se importam de continuar comigo independentemente do caminho que siga ou seja obrigado a seguir, isso bastava-me. mas não, continua intransigentes em aceitar que já não sou só parvo sou também frustrado e eu, inevitavelmente acabo por me sentir abandonado.
torna-se folgado o espaço dado uns aos outros, a proximidade da coisa (a tal amizade) parece a cada dia mais distante do que foi ou do que tinha sido até aqui, estranho e diferente é assim estou mas isto porque até então poucos ou quase ninguém me acompanhou (ou decidiu fazê-lo). eu posso ter mudado mas não fiquei transfigurado, sou a mesma pessoa, igual nas ideias mas talvez um pouco diferente nos sentimentos, mais apático. ganhei um ou outro gosto, perdi de vista um ou outro sabor, mas no fundo sou o mesmo, não sinto que tenha desperdiçado nada mas sinto que não realizei o que queria e sem sombra de dúvida sei que não realizei o que devia. de certa maneira mantive-me fechado, não consigo ter confiança naqueles que um dia daria um dedo ou um braço, mas que no fundo acabei sempre por dar a mão. na natureza nada se perde, tudo se transforma, aqueles a quem me refiro cresceram e mudaram, ganharam um ou outro gosto, perderam um ou outro sabor, cresceram mas eu também não os consegui acompanhar. ninguém se culpa e ninguém, ninguém fez nada, agora julga-se e assume-se, pressupõe-se a partir de ideias criadas no passado que agora estão ultrapassadas, mas que ninguém se deu ao trabalho de actualizar negligencia de ambas as partes nesse sentido.
e aparece outra vez o pavor, aquele tremor de escrever se rumo, mais uma vez sem pinga de rancor bebo deste copo cheio de ardente amor que me queima a garganta, sinto a cada gole uma tranquilidade abismal por saber que tudo o que fiz, fiz, na altura e no dado momento da melhor maneira que sabia, posso ter errado aos olhos de alguém, posso ter falhado aos olhos de alguém, mas não consigo aceitar ser desprezado por olhos de ninguém. é essa a pior sensação que me podem dar. por alguma razão que me é desconhecida tenho ideia de que julgam que tenho uma vida fácil, que nasci num berço de ouro com o cú virado para a lua, que tudo me corre bem, que sou uma pessoa endinheirada e abastada, nada mais falso. enfurece-me um pouco que me julguem pela capa, não sei que capa aparento pois só me conheço por dentro, sempre ignorei o meu exterior sempre me foquei mais em crescer como pessoa e nunca como figura.
das poucas relações que tive a última foi de certa maneira aquela que mais me aleijou, durante meses andei fodido, chateado, quase revoltado por não saber o que é que ela queria de mim, espremi os miolos até à exaustão para tentar perceber porque é, que ela, sem razão aparente me tratava assim. durante meses deixava-me a dormir a pensar na primeira coisa que lhe ia dizer de manhã e acordava exageradamente feliz por saber que talvez hoje ia ter a sorte de estar com ela, e ao longo do dia ia ficando gradualmente fodido por não perceber porque é que, sem razão aparente, tão depressa me amava como me desprezava, sem nunca perder a esperança acabei eventualmente por perder a confiança de que ela era a mulher para mim. um romântico de coração mole cada vez mais apático e frustrado por ainda não ter encontrado aquela que um dia diga que me ama, faz tempo que ninguém me diz isso, faz-me tanta falta esse segundo quando alguém nos olha e diz que nos Ama.
com um olhar apagado e um sorriso demorado ainda aqui estou, estou com fé que me saia um ou outro divinal verso à Álvaro de Campos, também eu estou entediado, também eu preciso de novas sensações, também eu quero esquecer o passado, também eu estou cansado e entediado, cansado e entediado. também eu ó Álvaro, quero ser amado.

quinta-feira

DRIM, DRUM, DRAM.

e então?

oh, sábio sabor do vento, tanta ilusão me trouxeste vinda lá do norte do rio, nada faz sentido, cuidado amor intransigente, acautela-te com tais palavras sorridentes, se chegam a sorrir com cara fechada que de bom podem trazer?

sem resposta lá vou eu, a galope, neste cavalo sem rédeas, desalvorado e louco neste mar de plantas efervescentes, loucura, loucura, possante loucura, perdida dinastia de Reis sedentos de açúcar, a canela já não favorece o paladar de tais línguas azuis, cruel o destino da canela que agora passou para o arroz, nada.

e é então, que ao sentir um leve toque no ombro me viro para trás, e tráus, um soco nas ventas como à muita não levava, nem vi bem de onde veio, parece-me que o individuou que me atacou foi lambido por uma vaca e gostou.

o despertador toca, e toca e toca e toca, acabo por acordar, queria tanto continuar a sonhar mas pronto, lá vou eu trabalhar.