sexta-feira

Meio Dia

Olha foda-se, mais um daqueles. Aproveito para pensar mas não faço mais nada, meio farto ora. Quero muito, bastante, oh quero tanto, sonhar. Mas já não consigo, fecho os olhos e acordo 8 horas depois, não senti nada sinto-me em branco, escuro, vazio, mais um dia, oh cá vou eu. Agora que queria, sei lá se queria, claro que queria, agora que quero levanto-me da cama, calço os chinelos e lá vou eu para a casa de banho ver o estado do meu cabelo, às vezes a dormir fico com o cabelo todo torto, podia tomar um banho e resolvia a questão mas arf.. banho.. Mijo, lavo os dentes, visto-me, ponho um boné (forma que encontrei para escapar ao banho, fartei-me de usar gel) e lá vou eu levar a cadela à rua. Envio uma sms a alguém, ultimamente ganhei o hábito de falar com alguém de manha de certa maneira dá-me alguma estabilidade, comunicar, embora sejam sempre poucas palavras se forem boas dão-me algum alento, se forem más lá fico eu carrancudo e parvo, estúpido como sempre, é daquelas coisas, feitios.
Chichi e cócó, altura de ir para casa tomar o pequeno almoço. Chego a casa, penduro a trela e lá vou comer qualquer coisa. Nojo. Não gosto disto, não quero isto, não me apetece isto, quero água. Mas depois vou ter fome. Fruta? Hm.. Levo uma maça e uma pêra para o caminho, ligo os headphones à PSP, escolho o álbum para o caminho, ponho em shuffle, bloqueio a PSP, vou ao quarto dou um beijinho à minha mãe e lá vou eu para a escola, o tal caminho. A musica ajuda-me a caminhar ainda com o sono pesado sobre mim, com os olhos meio tortos do sono dou a ultima trinca na maça e atiro-a para a terra, tenho fé que um dia crie uma macieira à toa, começo a comer a pera, lá mais para a frente atiro a pêra para o contentor do lixo, era isso ou o chão não há terra nesta parte do bairro.
Continuo a andar e lá chego aquele portão, sempre as mesmas criaturas as mesmas ideias, as mesmas filosofias sempre iguais e dependentes umas das outras, ainda não se aperceberam que não são mais do que um grão de areia? Tento ignorar, pessoas, mas não consigo, sempre que alguma abre a boca e começa a cuspir virgulas sinto todos os pêlos do meu corpo arrepiados e penso "Foda-se, acordei agora, vá lá.." Gosto de chegar atrasado de manha, não gosto de ficar na escola à espera do toque e ter que ficar ali no meio de todos aqueles narizes a pingar, entro para o bloco, subo as escadas vou para a sala, não levei falta, paz, sento-me e aprecio a disciplina.
Adoro aprender, repito-me, adoro aprender, a sério, faz-me sentir sei lá, humano, aprendemos alguma coisa ou só aquilo que nos interessa? Às vezes parece que só ligamos ao que nos convém (às vezes?), mas não sei é-me incerto, por agora é-me incerto.
Toca para a saída e não tenho fome, tenho vontade de fumar mas não sei se quero ir para aquele misto de pulmões incandescentes à espera de fumo, que remédio. Está bem. Lá saio eu do bloco com cigarro na boca e caminho por entre um mar de gente oca, ou serei eu o oco? Não sei, é-me incerto. Tenho cinco SMS para responder, na aula não pude responder a professora não acha piada, é daquelas tais aulas que não dá para usar o telemóvel, vou a escrever a mensagem e a caminhar para o portão, cá estou eu, encosto-me acendo o cigarro e fico à espera que toque outra vez para a entrada, rotina? Não, vida de estudante. O cigarro acaba mas ainda não tocou para a entrada e agora? Enrolo outro cigarro? Fico só aqui a enviar mensagens? Não está aqui ninguém para falar e não me apetece falar de drogas, de carros, de gajas, sempre os mesmos tópicos, queria mesmo era falar sobre pokemons mas foda-se ninguém me compreende, como é possível não gostarem do Blastoise? Bastardos.
Toca finalmente para a entrada e lá vou eu, são os últimos 90 antes do almoço, vou para a aula e nos primeiros 30 minutos consigo prestar atenção, os outros 60 fico só a pensar no almoço, fico a pensar nalguns momentos perdidos, nalgumas coisas que disse, noutras que não disse, situações passageiras mas que me marcaram, pequenos trechos de tempo que ficaram uns trazem-me um sorriso outros fecham-me o rosto.
Começo a pensar no que vi ontem na paragem quando estava à espera do autocarro depois de ter ido beber café com o Carlos e a Tânia. Lá estava eu à espera do 12, do outro lado da rua está uma mãe, sei que é mãe, nota-se, tem ao colo uma menina loira, de olho claro, parecia-me ser um verde acastanhado a mãe no entanto tinha os olhos azuis mas eram as duas loiras. Reparo que o homem que estava sentado no banco ao meu lado fica meio agitado quando as vê, levanta-se e encosta-se a uma das laterais da paragem à espera que elas atravessem a estrada, era o pai da menina. Aspecto chungoso, boné da Nike, tshirt branca do Cristiano Ronaldo, calças de ganga azuis e uns ténis da abibas (sim abibas), a mãe mete a menina no chão, o pai baixa-se para a beijar mas ela docilmente afasta a cara da do pai, parece envergonhada - falta de convivência talvez - o pai pega na menina ao colo e a mãe vai-lhe dizendo todo o tipos de cuidados que ela precisa, está doente, precisa de tomar o medicamento a horas e não se pode deitar tarde, algo no bolso do pai começa a vibrar é o telemóvel, ele apoia a menina com o braço esquerdo, leva a mão direita ao bolso e atende o telemóvel, num instante provou que é mau pai, preferiu atender o telemóvel do que ouvir a mãe sobre os cuidados que a filha precisa neste fim de semana doente. Desliga o telemóvel passado uns dois minutos, não teve pressa, a mãe nota-se que está fragilizada e não pretende sair do pé da sua filha enquanto não tiver certezas de que o ex-marido percebeu o recado. A mãe finalmente dá um beijinho à filha e o pai afasta-se, começa a andar acabando por desaparecer no fim da rua, a mãe ficou o tempo todo no mesmo sitio a ver a filha ir-se embora, quando viu que já não ia conseguir ver a filha hoje vai-se embora com uma lágrima no olho, entretanto o autocarro chega e acabou de tocar para a saída, lá vou eu almoçar.
Arrumo o estojo e o dossier na mochila, desejo bom fim de semana à professora e lá vou eu para casa. Desço as escadas enquanto ligo a PSP e escolho a soundtrack para ir para casa, saio do bloco com o tal cigarro na boca, tiro o telemóvel do bolso e só tenho duas SMS para responder, respondo às duas com aquele já caracterizador humor parvo e estúpido da minha parte, penso que dei a melhor resposta possível (quando na verdade tinha 16020 respostas possíveis para dar e todas melhores do que aquelas que dei - sim fiz as contas-) e chego ao portão, e lá está, a mesma imagem de sempre: mesmas pessoas, mesmas caras, mesmas filosofias, dependência generalizada, portanto uma massa e excluindo um ponto aqui e ali, talvez umas minorias bacanas, mas infelizmente não geniais como eu gosto, acusem-me de ser arrogante, sejam hipócritas.
Lá vou eu pelo tal caminho. A caminho de casa encontro uma folha no chão que me chama à atenção, paro em frente à folha e provavelmente a minha primeira reacção seria pisá-la e mostrá-la que o ser superior sou eu mas não consegui, peguei na folha e olhei em volta, não havia nenhuma árvore num raio de 500 metros que tivesse aquele tipo de folhas, acho estranho e peculiar por isso decido ficar com ela, ou será que foi ela que ficou comigo? Antes de chegar a casa assobio duas vezes a minha cadela vem à varada e fica super contente por me ver, é tão difícil encontrar nas pessoas felicidade tão genuína como aquela que encontro naquele doce animal. Abro a porta de baixo, subo as escadas, já a oiço encostada à porta à minha espera, mal ponho a chave na porta sinto logo a porta a abanar, rodo a chave abro a porta e lá está ela em êxtase porque nao me vê à 180 minutos, é tão difícil encontrar nas pessoas felicidade tão genuína como esta que encontro neste doce animal.
Vou à cozinha ponho a mala em cima da cadeira, tiro os headphones e vou à sala dar dois beijinhos aos meus pais, volto para a cozinha e aqueço o almoço, vou à casa de banho lavar as mãos e oiço o som do microondas, tiro o prato e antes de o por em cima da mesa ligo a máquina de café para que vá aquecendo, gosto sempre de tomar café depois do almoço acompanhado pelo belo cigarro, o terceiro do dia (lá para as 5 da tarde já perdi a conta aos cigarros). Acabo de almoçar ponho o prato e os talheres dentro da maquina de lavar loiça, respondo a uma SMS e tiro um cafézinho, enrolo um cigarrinho e fico ali na cozinha acompanhado da minha cadela a fumar e a beber café e a enviar SMS, gosto que o café dure, inclusive gosto dele frio, por isso este cafézinho vai-me durar até voltar para a escola. O cigarro acaba e lá vou eu à rua com ela. Pego na trela e nas chaves, abro a porta, desço as escadas, abro a porta da rua e lá vai ela toda maluca à corrida para a terra. Ela adora correr e adora especialmente correr atrás de pedras, à hora de almoço fico pouco tempo, atiro umas pedras mas não a canso muito costuma estar calor, chichi e cócó e voltamos para casa, ela não quer prefere ficar a cheirar tudo, chamo chamo chamo mas não quer vir, ignora as minhas ordens por uma erva daninha, vejo-me obrigado a ir ao pé dela meter-lhe a trela e trazê-la para casa.
Chego a casa, penduro a trela, tiro os ténis passo pela cozinha para ir buscar o café e vou para o meu quarto. Vejo se tenho alguma SMS, por acaso tenho, respondo e entretanto acendo um incenso (de coco) , ligo o PC, enrolo um cigarro enquanto o enquantoPC liga e inicia o Ubuntu, abro o rhythmbox e escolho uma musica, ponho em shuffle e deixo-o a tocar. Abro o Firefox e vou ver os sites do costume verificar os emails, depois da breve navegação fecho o Firefox e simplesmente fico a ouvir musica à espera que seja altura de voltar para a escola, envio mais uma SMS ou outra e aproveito para tirar da mochila os cadernos que já não preciso.

São horas de ir para a escola, mas não me apetece. Que remédio, vou e amanha cá estou.

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