quarta-feira

Limbo de Apaixonados

Nada disto tem alguma coisa a ver com o que se passou, no entanto não consigo deixar de pensar em tudo, ou em nada, sinceramente neste momento não sei bem o que sinto ou o que deva sentir. Estou aqui sozinho a ouvir Violent Femmes e há uma frase que me ficou na cabeça: I would love to love you lover.

Hoje amo-te, amanha não sei. Hoje quero-te, amanha não sei. Hoje sou parvo, hoje sou completamente parvo. Apaixonei-me, pareceu-me tão simples na altura, tornei-me apenas mais um apaixonado neste mundo, mas agora amo-te, e sinto-me tão parvo. Parvo porque já sabia que não devia, parvo que já sabia que não era correcto, parvo porque já sabia que mais cedo ou mais tarde ia acabar por acontecer mas mesmo assim não me contive, decidi deixar todo este turbilhão emocional entrar em confronto com o que no fundo sabia que não devia fazer, mas não resisti, no fundo era o que queria mas estava com vergonha de o admitir.

Sento-me e penso, procuro conforto nalgumas ideias antigas e observo em quem me tornei, não sei se gosto, sinceramente não sei mesmo, estou aqui a olhar para o meu reflexo e vejo alguém completamente embebido em ti, gostava de te chamar apenas de Inspiração mas tenho medo que detestes. Os meus dentes começam a ranger, está frio, está tanto frio cá fora, procuro abrigo dentro de uma praça escondida, lá ninguém julga, lá ninguém acusa, lá todos percebem o porque, lá todos tem a mesma razão de estar e de ser, apercebo-me que acabei de encontrar um antro de apaixonados não-reclamados, uma espécie de perdidos e achados cheio de corações partidos e almas feridas, loucura, estou em êxtase, sinto-me em casa, sinto-me compreendido, sinto-me reconhecido. Eles sabem o sofrimento que é não ser amado, não ser acarinhado, não ser mimado, e é tão estranho.. todos eles se parecem comigo..

Em choque levo as mãos à cabeça, nada disto é o que estava à espera.. Não sei como reagir, será que devo reagir? Não compreendo, não tem lógica, não faz sentido. Cada uma destas pessoas sou eu num tempo passado, cada desgosto está aqui, cada paixão, tudo.. Que estranha sensação, que admirável emoção.. Tenho hoje a possibilidade de rever tudo o que sofri por amor, será que quero? Sim, sim acho que quero, será que devo? Não sei mas.. tenho saudades de uma certa dor, tenho saudades daquele pequeno ardor que me entra e faz-me sentir vivo, e ali, ali com todo aquele ardor sinto que posso continuar a sonhar.

E que sonho é este? Portanto agora sonho, já consigo. Não te quero ver à frente, não te quero sequer imaginar, quero esquecer que um dia pensei em amar-te, mas és-me tanto. Confuso, trocado e baralhado, começo a andar, apenas a andar, ando sempre em frente, ultrapasso todos os obstáculos: sol, vento, chuva, fome, feridas, e faço-o com a convicção de que um dia te vou voltar a ver. Pelo caminho um desconhecido pergunta-me se te perdi, eu digo que não, ele conhecendo a minha historia, de um homem perdido que anda sem parar e sem ter consciência para onde vai pergunta-me qual é o meu objectivo, visto que não te perdi, eu respondo-lhe que não é a ti que te procuro é a mim.

Sem comentários: