quarta-feira

Ó, Animal.

Estou perdido no paraíso*, sei que sim, mas estou cheio de raiva perante os outros, sinto que os meus sentimentos pelos outros se estão a tornar animalescos, já não consigo raciocinar limito-me a usar o instinto e assusto todos os que se aproximam de mim, faço-o apenas com uma palavra: odeio-te.
E odeio mesmo, é tão puro como saber que estou vivo e no entanto mais depressa questiono a vida do que o ódio que sinto por ti, nunca pensei que pudesse vir a sentir isto por alguém, realmente nunca gostei de algumas pessoas, mas odiar-te assim tanto como te odeio a ti é algo novo e refrescante.
Finalmente sinto que realmente conheço os meus sentimentos, tenho pena que tenha começado pelo ódio mas talvez assim dê mais prazer quando num determinado momento aperceba-me que estou apaixonado, talvez aí possa dizer: "Ah! Então é isto".
Hoje em dia sempre que acordo a primeira coisa que me vem à cabeça é: "Foda-se, mais um dia..". Mas sempre que me vou deitar a única coisa que realmente consigo pensar é que um dia vou morrer, e isso assusta-me de tal forma que passo horas na cama de um lado para o outro com medo que esse dia chegue, a morte em si não me assusta, assusta-me sim o total desconhecimento que tenho dela.
Lembro-me de ser uma pessoa com um voraz apetite para tentar agradar os outros querer fazer sempre tudo bem, querer chegar sempre a horas lembro-me também de ser uma pessoa simpática e acessível, mas depois de tudo o que passei não me lembro-me nem de dei conta do momento em que me tornei alguém tão frio e insensível. Não tenho pena, nem vou tentar mudar ou voltar a ser quem era, não, muito pelo contrário até porque estou bem assim, sinto-me bem assim, estou bem comigo mesmo e isso chega-me, os outros, esses, não merecem um segundo perdido, não merecem uma palavra dita sem pensar, não merecem um caralho, eu estive na merda, senti e passei por situações e momentos que nunca pensei algum dia vir a passar ou sentir e da única vez que lancei a mão ao ar de forma a obter ajuda, um carinho que fosse ou apenas uma palavra amiga, a única coisa que obtive foi merda de pombo no meio dos dedos, mas no entanto não deixa de ser engraçado que goste mais de pombos do que humanos.
Foi estranho, foi, foi mesmo muito estranho e em certas alturas foi tudo tão estúpido e incoerente que dava por mim a pensar: "Não, pá.. não, simplesmente não, não é assim que as coisas são, não pode ser assim".
Mas assim foi e assim são e isso assusta-me, quem diz que só acontece aos outros está a ser a pessoa mais quadrada deste infinito universo, temos que estar preparados para tudo, nós não esperamos por certas situações mas as situações também não esperam por nós, passam por nós, dão-nos murros, pontapés, enfiam-nos num poço de agonia e angústia e a única ajuda que nos é dada é algo que nasce connosco e não é nada mais do que a nossa força interior, é nestas alturas que aprendemos que só podemos contar connosco, com a nossa força e crença em querer ultrapassar o penoso caminho que temos pela frente.
Tenho pena de não saber escrever porque adorava realmente conseguir expor por palavras aquilo que realmente senti e passei, de verbalizar o que sinto, mas não consigo e isso foi outra coisa que aprendi: certos momentos são inexpressáveis. No entanto fico feliz por ter passado por tanto, sinto que tudo isto de certa forma me ajudou a crescer, sinto-me mais preparado, mais forte, mais maduro, mais adulto, mais feliz por saber que me tornei numa pessoa melhor.
Voltando ao ódio, a essa vil palavra que a cada vez que a oiço se torna mais agradável e acessível, o ódio que neste momento é forma preponderante em mim, talvez alguém se questione quem eu tanto odeio, o mais certo é ninguém se questionar porque o mais certo é ninguém se importar, no entanto sinto uma enorme vontade de tirar isto do peito, e pôr cá para fora esta frase que tanto me aflige e ao mesmo tempo tanto me agrada: odeio-te ser humano.
Mas sim sei dar valor, claro que sei dar valor a todos os quais me ajudaram e me apoiaram mas que acima de tudo se preocuparam genuinamente comigo, sei e vou dar valor até à minha última gota de sangue porque é nestas alturas que se vê os verdadeiros amigos, portanto desta experiência toda tirei grandes lições e aprendi, aprendi muito mas fundamentalmente cresci. Obrigado.


* Não sei como cá cheguei, não acho católico deixarem-me entrar no paraíso, logo a mim, alguém com tanto ódio a transbordar, e então sinto um suave toque no ombro direito, viro-me para trás e em vez de encontrar São Pedro, encontro o Kurt Cobain. Fico espantado e eufórico, aos gritos a gemer e a contorcer-me todo por dentro e com a voz mais calma de sempre digo:
- WHAT?
- Bem vindo ao inferno, por acaso não tens ervinha? O cabrão do Sid Viscious rasou o mercado todo, anda o inferno todo completamente limpo de drogas à pàla dele.
- WHAT?
- Pois, isto de poder consumir drogas e não morrer foi o melhor que aconteceu ao Sid.
- WHAT?
- Ok man tu és estranho, vou voltar para o meu casulo gigante feito com musgo de caracol e fios de lã de ovelha virgem do Sri-Lanka.
- WHAT?

Toque no ombro

Faz tempo que não te digo algo que normalmente fazia questão te de o dizer todos os dias. Talvez, pelo simples acaso me tenha esquecido do que te dizia, talvez apenas, na verdade não tenho a certeza.
Isto vem ao propósito de hoje ao acordar, ter olhado para ti agarrada à almofada e notava-se que estavas a sonhar, não sei bem como mas notava-se, tinhas um sorriso de orelha a orelha e no entanto tinhas chegado a casa à duas horas estafada do trabalho, e foi ai que me lembrei que havia algo por dizer.
Levanto-me da cama e vou tomar um duche, abro a torneira de água quente deixo correr um pouquinho e quando noto que está quente, abro um bocadinho a água fria, atiro os boxers para o chão e enfio-me debaixo do chuveiro. Deixo a água correr pelo corpo ainda meio adormecido e não consigo deixar de pensar que falta algo, que ando a deixar alguma coisa para trás, a água massaja-me o corpo e sabe-me tão bem, rapidamente esqueço-me de tudo e fico apenas de pé a sentir o suave repuxo do chuveiro a bater-me nos ombros.
Saio do chuveiro, pego na minha sempre fiel toalha de banho azul-turquesa e seco-me, a barba já com um dia deixo-a por fazer, gosto de a ver assim, visto uns boxers novos, visto as minhas queridas calças de ganga com aquele típico azul gasto, visto a minha tshirt preferida, as meias, calço os ténis, ponho um pouco de perfume e lembro-me que me esqueci de escovar os dentes. Lá os escovo rápido porque já estou meio atrasado e vou para a cozinha. Pego no pacote de pão de forma, meto duas fatias a torrar e ponho água a aquecer no microondas para fazer um chá de cidreira.
Acabo de comer, vou ao quarto buscar o casaco, pego nas chaves, abro a porta, fecho a porta e é ai que me lembro, que finalmente me vem à cabeça. Abro a porta outra vez, pouso o casaco em cima do sofá da sala, dirigo-me ao quarto, abro a porta devagar, chego-me ao pé da cama, encosto-me a ti, dou-te um ligeiro toque no ombro com a mão:
- "Amor, desculpa ter-te acordado.. Amo-te."