sábado

Senhor do Vento

É deixar-te voar sem te tentar apanhar, mas no final quero-te simplesmente porque não te posso apanhar, simplesmente sei que não te posso ter.
Sou maníaco, pois sou, entro por becos escuros e grito, saio a correr e não paro, começo a voar mas não sei onde quero ir sei apenas que não quero ficar. Transformo-me porque quero não apenas porque devo, sou agora um bicho pequeno com várias patas, feito, imaginado e pensado apenas para te olhar, para te ver, para te viver para beber um pouco de ti. Saboreio-te, hmm. És amarga, diz-me onde escondes o teu sabor doce, sei que o tens, por favor não fujas não me deixes morrer com a boca azeda, da-me um pouco do teu amor, ama-me um pouco, o suficiente para respirar um pouco do teu calor.
Jogo contigo, procuro-te neste labirinto sem chave, o vento empurra-me para longe de ti, tenta separar-nos, mas eu já disse ao vento que de ti apenas quero uma recordação mas ele teima, teima em batalhar comigo, por uma razão fútil e banal persiste na sua teoria catastrófica de que te quero só para mim, pois ele sabe que se te tiver, nunca mais poderá levar a tua doce fragrância por esses céus com o seu sopro forte e impetuoso.
Assumo que te amo sem nunca te dizer porquê, sopro ao vento os meus segredos, leve, levemente ele chega-se ao pé de ti e dá-te o meu recado. Tu, sem saber de onde vêm as palavras ouves o vento a chegar e apercebes-te que foi ele que te trouxe até ti o meu recado, consideras que já fizemos as pazes mas não percebes porquê, não sabes porque é que o vento já não implica comigo, não sabes nem fazes ideia porque é que o vento já não se importa que eu te ame.
O recado é a explicação: a traição do destino disse-me que só te podia amar se domasse o vento, se o tornasse meu, agora sou dono do vento, agora sou dono e senhor dos céus, controlo os ares e o destino das aves, agora sou aquele que te cria, aquele que te dá, aquele que te ama, aquele que te magoa. Agora sou o teu senhor, o teu dono, o teu marido, teu pai e teu filho, agora com o vento sobre a minha alçada não te posso ter.
Tanto lutei para o domar, tanto trabalhei para poder levantar a mão e sentir o vento sobre o meu controlo, mas agora é tarde. Tornei-me ambicioso, podia ter ficado apenas contigo, eu e tu, tu e eu na nossa velha casa de campo com paredes de pedra e portas de dominó, mas não. Pequei, e por isso sou dono do vento. Quis tudo ter e nada tenho, agora que te quero é tarde. Nada mais posso fazer do que entrar todos os dias pela janela do teu quarto e acariciar-te, nada mais posso fazer do que acompanhar-te todos os dias nos teus passeios. Se algum dia achares estranho sentires um beijo ventoso, não estranhes, sou eu.

2 comentários:

*LaLa* disse...

Senhor do Vento, o texto tá lindíssimo. Todas as janelas vão adormecer abertas esta noite. =)

Joana Canas disse...

não consigo deixar um comentário digno para um texto como este.