quarta-feira

bate o pé maria

nunca me ouviste ou, pelo menos para comigo, sempre te fizeste de surda. achava estranho, mas habituei-me, sinceramente, que remédio tinha eu? eras tu quem eu amava, eras tu quem eu mimava, afinal foram essas tuas mamas que amamentaram o nosso filho.

longos anos de paixão e de loucura juvenil quando os dois juntos somávamos 87 anos de idade. o tempo contigo ora não passava ora não se dava por passar, fomos os dois aquilo que muito pouca gente o é, mais! fomos o que pouco gente ousou ser, fomos nós, desprovidos de vários conceitos sociais, fomos.

daqui não passo, daqui não posso passar, daqui tenho medo de passar, mas a verdade é que passou.
os poucos anos que passámos juntos, tornaram-se eternos. eternos porque foram intensos, avassaladores e cruéis. tenho a certeza que existem certas coisas que passam simplesmente porque fazem parte do passado, não te lembras delas até ao dia em que alguém te diz : "lembras-te daquilo?" - algo assim permanece e marca, algo assim afecta e mata.

a verdade é que tive sempre medo, medo de que não estivesse preparado para o que pudesse vir a acontecer, medo de ficar sem forças para te apoiar quando de mim precisavas.
sempre que ia ao hospital ter contigo, antes de entrar no teu quarto, quebrava o meu jejum de ateísmo e pedia a Deus (hipocrisia, eu sei) que te ajudasse. Durante meses Ele não me ouviu, foi então que Lhe pedi que te matasse.

era insuportável ver-te naquele estado, inconsciente mas com cara de sofrimento, via-se que estavas a sofrer sem dizeres uma palavra. ver-te naquela cama, com aquele pijama rosa com ursinhos castanhos, irónico. pois foi esse mesmo pijama que estavas a usar quando o nosso menino nasceu. usaste-o para dar à luz uma nova vida, e agora estavas a usá-lo na hora da tua morte.

tu sabias o que esperar a cada copo que bebias, por mais que te custasse a admitir, eram literalmente garrafas que ingerias. durante anos disseste que ias parar, durante anos disseste que estavas melhor, durante tamanha carrada de anos o teu fígado piorou. depois do funeral da tua mãe, desapareceste. o teu corpo não aguentou as 3.05 gramas por 100 mililitros de sangue.

quatro meses depois do coma o teu corpo cedeu. foi estranho no teu funeral ver tantas lágrimas, quando tu sabes tão bem quanto teu, muitos dos teus familiares ainda choravam pela tua mãe. senti-me - e desculpa-me por dizer isto porque vai parecer um clichê post mortem - contente. contente porque o teu sofrimento acabou, contente porque talvez agora, estejas num sitio melhor. quem estivesse presente no enterro havia de achar estranho ver tantos girassóis, mas tu fizeste-me prometer que quando morresses, querias centenas de girassóis no teu funeral.

no meio da tua família sempre foste a ovelha-negra. porque nunca seguíste as regras que eles te tentaram impor, porque te tornaste numa mulher com ideias firmes e uma personalidade inegavelmente forte, isso assustava-os, porque viam em ti, tudo aquilo que nunca conseguíram ser. serezinhos hipócritas. para mim, sempre foste uma ovelha-arco-íris.

oito anos depois da tua morte. o nosso menino casou-se. no dia do casamento, ele disse-me algo que foi talvez a coisa mais linda e triste que me lembro de ter ouvido:

"pai, hoje sou o homem mais feliz do mundo. vou-me casar com a mulher que amo. tenho um óptimo emprego, melhor do que alguma vez desejei, e sinto-me confiante de que tenho capacidades para fazer feliz a minha mulher. mas se pudesse, trocava toda esta felicidade para poder passar um dia com a mãe."

doze anos depois da tua morte, estou prestes a ir ter contigo. disseste-me várias vezes para parar de fumar. afinal, não eras a única que se fazia de surda. sempre que acendia um cigarro desculpava-me dizendo que só o fazia porque me acalmava. egoísta, estava-me a matar a cada bafo, sem pensar que íamos deixar o nosso filho órfão, egoísta.

morro com a felicidade de ter visto o nosso neto, morro com a infelicidade de nunca teres visto o nosso neto. morro com medo de morrer. morro feliz porque sei que vivi.

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