domingo

Porto Seguro

Passo horas no meu quarto sem saber para onde ir. Não sou religioso, mas vejo-me constantemente a pedir a Deus que o tempo passe, nem que seja uns minutos, apenas para que a angústia daquele momento se vá embora.
Para mim, todos aqueles gritos já se tornaram normais, já se tornaram uma parte de mim, apesar de que cada vez que os oiço, sinto-me enfraquecido e incapaz. Incapaz de reagir, ou de pensar, e muitas vezes desejava eu, de respirar.

O tempo perdido naquelas discussões foram talvez das vezes em que mais reflecti, reflecti sobre mim mesmo, sobre a minha família, sobre o amanhã, mas principalmente sobre o próximo sitio para onde eu iria na próxima discussão.
De todas as partes que co-habitavam em todas as casas que morei, só havia pressão de uma, uma pressão não física, mas psicológica, que ao longo do tempo, foi um dos grandes factores para o meu desenvolvimento. Nunca me foi exigido muito dos meus pais, apenas sinceridade. Tantos anos de gritos e sensação de medo, acabaram à pouco tempo, mas infelizmente, todo o tempo em que vivi naquele mundo de desacatos, distorceram em mim, certos traços da minha personalidade. Na escola, nomeadamente desde a primária, sempre fui o alvo. Nunca soube porquê, e sinceramente não quero saber. No ciclo, não me adaptei, era a bola de olhos azuis, era o gordo que permitia ser usado. Esses tempos que para mim foram cruéis, e traumatizantes, mas ajudaram-me a criar uma certa imunidade em relação à opinião das outras pessoas sobre mim mesmo, ainda que hoje em dia, continue a ter medo do que as outras pessoas pensam de mim.

Uma grande ajuda, foi aquele pedacinho de céu na azeda. Aquela casa foi para mim um refúgio, mas mais que isso, foi um local de sossego. É certamente, um porto seguro.
Não quero, nem nunca vou renegar o meu passado, porque para mim, esquecer o passado, é esquecer quem somos.

Espero, desejo, e procuro ser uma pessoa melhor, quero acima de tudo eliminar os meus medos e receios, quero expandir-me, e apesar de tudo quero SER, quero existir, e quero continuar vivo mesmo quando morrer. Em dezoito primaveras, anseio pela décima nona, porque sinto que a cada verão, dou mais um passo para a pessoa que quero vir a ser, alguém sem complexos, alguém que consiga saborear a vida sem precisar do consentimento de outrem.

Resumo a minha breve vida a uma frase de uma canção do Rui Veloso: "Tão depressa o sol brilha, como a seguir está a chover."

Basicamente o que procuro, é o meu chapéu de chuva.

1 comentário:

akira disse...

simplesmente lindo, nao quero entrar em promenores mas sabendo esm todos estes anos que te conhesso que tudo isso e verdade fico meio triste e meio contente por saber que o estas a ultrapassar
do teu best [[]]