quarta-feira

20,13 Purgatório



Chegar a casa às 7 da manhã estafado por ter passado a noite inteira a carregar sacos de areia, mas daqueles com areia mesmo e não com palha para encher, cavar buracos para preparar as explosões, andar numa 'fona' de um lado para o outro a verificar todos os pormenores de iluminação, de decoração, de racor, um repente todo o chinfrim passa quando se ouve: "ATENÇÃO POR FAVOR, SILÊNCIO NO PLATEAU, VAMOS FILMAR!" - e assim começava a magia.

É assim que classifico todas as dores que tive, magia. Para mim é isso de que se trata o cinema, escrever um argumento, pensá-lo, prepará-lo, revê-lo fazer uns ajustes, voltar a revê-lo e voltar a fazer outros ajustes, de modo a deixar tudo pronto para se começar a procurar investimentos, investimentos que quando chegam, começa-se a preparar a produção, a equipa começa a nascer. O casting selecciona os actores que vão interpretar as personagens que vão dar vida aos amores, às paixões e às intrigas.

São os actores que nos fazem chorar ou rir quando vemos o trabalho final, mas é a equipa que lhes dá condições para isso. Cada membro da equipa foi sem dúvida crucial para se ter criado mais uma obra prima da sétima arte Portuguesa.

Eu, infelizmente não consegui estar presente em todos os dias de gravação, mas os poucos dias em que lá estive fizeram-me ver um mundo com o qual todos sonhamos um dia estar envolvidos. Mais do que tudo foi uma experiência enriquecedora, fazer novas amizades, dialogar sobre assuntos que no dia-a-dia de alguém como eu nunca viriam "à baila", e claro é sempre bom saber que todas aquelas que entram pela nossa casa por meio de uma caixinha a cores, são acima de tudo humanos. Riem-se, fumam, 'dão pontapés gramaticais', e tal como qualquer pessoa que lá estava, aguardava ansiosamente pelo jantar que nos era fornecido pela melhor empresa de catering nacional (modéstia à parte), e claro, tapavam o nariz sempre que usavam as WC's portáteis.

Eu agora conseguia continuar a escrever sobre a felicidade que todas aquelas horas passadas na companhia de todas aquelas pessoas foram para mim. Ajudar o Connor a preparar as explosões, levar raspanetes do Animal, roubar cigarros ao Hugo, ir para o guarda-roupa atrofiar com a Joana, tentar arranjar espaço para observar os ecrãs, tomar atenção à máquina de fumo, fazer figura de parvo em frente à Ana, fazer de figurante pela primeira vez na minha vida e aleijar-me, observar com atenção as armas do Isaías, ver o César sempre a puxar as calças para cima, ver o Quimbé a maquilhar-se a si mesmo com terra, observar o Ivo a preparar-se para as cenas, ver o Marco mudar completamente de ar quando a claquete batia, ter conversas da treta com o Tiago (ainda hoje estou para saber como é que ele aturou todas aquelas perguntas estúpidas que fiz) , e claro tentar sempre ganhar distância sobre toda a equipa para o lanche da noite.

É para mim motivo de orgulho, a primeira vez que me vi envolvido num projecto deste tipo, ter tido a oportunidade de trabalhar com grandes nomes como Joaquim Leitão, Tino Navarro, Marco D'Almeida, Ivo Canelas, Adriano Carvalo, Carla Chambel e Maya Booth.

Sem dúvida que ficou muito para dizer e descrever, mas espero que a mensagem tenha sido clara: Magia.


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20,13 é, provavelmente, o melhor trabalho de Joaquim Leitão, na intersecção do que deve ser um cinema que pensa no grande público (e não o trata como atrasado mental) mas tem evidente marca autoral. Deseja-se ardentemente que não lhe caiba em sorte o mesmo acolhimento frio que recebeu "Inferno": seria imerecido e profundamente injusto passar ao lado de um filme assim.


Crítica por: Jorge Mourinha (PÚBLICO) (
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