sábado

toco a música e respiro tudo o que o ar me dá

confio na possibilidade de continuar a acreditar que tudo vai dar certo

és mais do que estórias que se contam quando alguém procura sossego

tudo o que posso querer é um pouco de poesia sem sentido, é a alma que nasce em tempos que se dizem perdidos, é no sufoco, disseram-me, de não se saber quem é, na angústia que se sente quando cada vez mais são as dúvidas que nos sustentam e não as certezas que nos aliviam o peso que sentimos quando diante de vós grito com tudo o que sou e com tudo o que tenho que só com Ele encontro o amor

encontra-me num abraço, encontra-me na memória daquele sorriso que não consegues colocar em mais nenhuma memória


terça-feira

escrevo à pressa, o tempo é corrida, imutável, o segundo que passou já não será nunca meu

aperto-te o pulso, confia, vai cair, vais sentir

sossego no ouvido, tranquilo, respiro e digo-te com um suspiro: o amor é nosso.

sexta-feira

Cada vez mais sinto que sou um triste rebelde preso num quarto a ouvir música que não percebo cuja única percepção que tenho da vida é a que de, no fundo, morrer é viver.
Gostava de puder saber um dia se a amplitude de todos os meus gestos tiveram realmente a realização que eu fiz deles ou se fui apenas uma pena ao sabor do vento, que triste seria saber que mais não fui do que, como alguém um dia me disse um pequeno passageiro do destino sem força para questionar ou decidir. Senti-me como uma pequena embarcação refém da vontade das marés e gostei dessa ideia. Quis essa afirmação dizer, no fundo, que nada do que eu fiz ou farei poderá ser imposto - isto, mais tarde num julgamento superior - como algo que eu quis fazer se não apenas algo que fiz porque estive lá no momento e não porque procurei fazer parte desse mesmo momento. 

Mas foda-se, que merda sei eu?

Sou um miúdo perdido à procura seu lugar no mundo, sou um cliché sem qualquer importância. Sou uma vida que vagueia sem caminho, não diria que sou uma alma perdida porque me encontrei a mim mesmo neste mundo e tomei consciência, seguramente tarde, de que posso ser mais do que valho.

Eu sei lá.

Transpiro a essência de não saber revoltar-me com o mundo nos momentos oportunos. Não é a confusão que me confunde nem o barulho que ela faz à noite quando tento dormir, porque a mim o que mais me custa quando estou a tentar adormecer é ter medo de não saber se quando acordar vou conseguir lutar por mais alguma conquista ou se vou cair de joelhos perante o julgamento dos muros que caíram porque eu não os consegui segurar.

terça-feira

Cada vez me assusta mais a ideia de um dia te encontrar. Tenho medo de te descobrir com os meus próprios olhos. Apenas te peço que me avises e permitas que me prepare para te aceitar.
Contra uma parede, apertado pela incerteza de não perceber se devo acompanhar as palmas tenho vontade de comer tudo o que nos atrapalhar para puder cuspir para o chão e pisar com orgulho tudo o que nos magoa.

O disco continua a tocar no velho gira-discos da sala, a luz que entra pelas janelas através das cortinas verdes transmite outra sensação a todas as acusações que fazemos um ao outro e leva-me a perguntar se sentiria as coisas de outra maneira se a cor fosse outra.

Ando para cima e para baixo, às voltas, não sei para onde vou nem para onde quero ir. É uma pressão que me afecta, que nos rodeia da qual não nos conseguimos livrar nem olhos fechados.

Todo este sentimento que nos assiste não nos tem trazido qualquer tipo de lucidez, parece turvo, sente-se turvo e provavelmente acabamos por turvar de acordo com a esfera da sua influência. E é triste não vermos aquilo que precisamos de saber para mudar, é triste já nem sequer tentarmos, provavelmente por eu ter toda a minha atenção virada para o problema e não para a solução.

Não é o vento que me passa pelas costas e me diz para ter cuidado com o tempo que me atrapalha o pensamento, é a constante falta de bom senso que eu apresento, é a covardia que ostento com duas pingas de presunção e outras tantas de orgulho que me tornam uma pessoal complicada de lidar.

Eu não tenho medo de não ter mais nada para dar nem de saber que não tenho mais nada para mostrar, eu caí porque sonhei demasiado alto e não estive à altura dos meus pensamentos. Agi irreflectidamente segundo princípios incorrectos que adquiri de maneira errada, no entanto não tinha mais nenhuns e não tive na altura maneira diferente de actuar.

Se soubesse, faria tal e qual como fiz quando não sabia que estava a errar. Errei porque calhou, na altura, ser eu a pessoa que, hoje sei, julgava ser tão diferente, tão capaz. Agora sei que bastava todos os dias provar-te que te amava como desde o primeiro dia em que tu , envergonhada, disseste que aceitava namorar comigo. A inocência desse teu sim ocupa-me o coração sempre que olho para ti e faz-me acreditar que tudo entre nós vai passar e eventualmente resultar, porque, acredita quando te digo que embora já tenha passado por muito não senti ainda hoje dor maior do que quando me dizes que já não te vês a meu lado.
E choro pela incerteza de não saber o que vou sentir quando deixar de te ver sorrir por alguma piada parva que eu disse.

E tu sabes tudo. Conheces o sabor do vento, sabes de cabeça quantas gotas cairam quando chorei aos teus pés. A tua certeza aniquila as minhas dúvidas, constroem-se incertezas nas fundações putrefactas daquilo a que chamamos de amor, aquele sentimento que julgamos sentir, que julgámos ter conseguido sentir, e sentimos, mas não o soubemos preservar. Fizémos tanto, dissémos tanto, chorámos tanto que acabámos por estragar o que tentámos construir.

Jamiroquai - Seven Days In Sunny June

Estou sentado no meu escritório a fumar o meu cigarro acabadinho de enrolar e que bonitinho que ele estava antes de o acender. Que bem que me sinto aqui, a janela está aberta na medida certa, tudo está bem.

- Boa tarde Inspector, posso?

Era o Agente Quatro e meio, pelo menos era essa a alcunha dele, o nome ninguém sabia por isso toda a gente o trata por 4,5.

- Claro que sim, força, faça o favor de entrar.
- Olá, boa tarde, vinha-lhe pedir um favor.
- Claro que sim, força, o que precisa?
- Bem, preciso de dois quilos de farinha, quatro ovos e a Lúcia disse-me que tinha para ai um resto de pudim já com alguns dias.
- Claro que sim, o que não falta para aqui é farinha e ovos, agora o pudim é não posso dar.
- Ui, mas eu precisava mesmo desse bocadinho de pudim sabe?
- Claro que sim, imagino que sim, mas repare 4,5, eu adoro pudim verde.
- Verde?
- Claro que sim, nada me agrada mais do que comer um pedacinho de pudim verde depois de fumar um belo cigarrinho acabadinho de enrolar.
- Aquele pudim? Aquele que está ali em cima daquela prateleira?
- Claro que sim, esse mesmo.
- Mas.. aquele pudim é amarelo, torrado, pudim.. amarelo torrado.. deduzo que seja de baunilha..
- Claro que sim, de baunilha sim senhor.
- Então mas o Inspector disse-me que gosta é de pudim verde, de kiwi presumo, talvez abacate ou lima, no entanto aquele é de baunilha, é amarelo, torrado, é de baunilha é amarelo e torrado, mesmo o que eu precisava para fazer os queques de morango.. não me o pode dispensar..
- Claro que sim, no entanto não o dispenso. Repare 4,5, o pudim apesar de estar amarelo, vai-se estragar, ficar verde, horrivelmente nojento, com um pivete quase insuportável a esgoto, cheio de larvas, de bolôr azul que lhe dá aquele toque quando a luz da lua incide sobre o copo onde se encontra o pudim e me ilumina o escritório com uma côr escarlate que me inspira a escrever sobre uma data de coisas sobre as quais não tenho opinião nenhuma e é por isso mesmo que eu, por muito que gostasse não o posso dispensar.
- Ora bolas, então e agora como é que eu faço os queques de morango? Prometi à Lúcia que seriam a sobremesa para depois do jantar, e eu nem quero imaginar o que me vai acontecer se a Lúcia não tiver os seus queques de morango para a sobremesa..
- Claro que sim, compreendo perfeitamente que a sua situação não é de todo agradável, aqui na agência todos nós conhecemos muito bem a Lúcia e digo-lhe, com a maior sinceridade que o meu corpo neste momento me permite disponibilizar que chego a ter pena de si caso não consiga fazer os tais queques de morango para a sobremesa, por isso leve lá o pudim homem, a escrita pode ficar para outro dia.
- Muito obrigado Inspector!
- Claro que sim 4,5, agora saia lá do meu escritório que eu preciso de escrever e esse seu bafo azedo a vómito de hiena desdentada com o cio faz-me uma confusão danada e não me permite sobre coisas que não faço ideia do que sejam.
- Então porque é que escreve sobre elas?
- Bem porque.. bem porque.. ora repare bem numa coisa Quatro e meio, estamos em que andar?
- Estamos no 3º andar Inspector!
- Muito bem, e quantos andares tem este prédio?
- Bem.. dois.
- Ora exacto! Não estamos propriamente num andar pois não?
- Bem.. não.. quer dizer.. não deixa de ser um escritório.. em cima dos outros.. enfim.. no telhado talvez..
- Claro que sim, no telhado, e o telhado é um andar?
- Bem.. pois.. hm.. suponho que não.. talvez.. pois, não, não é.
- E quantos escritórios há por andar 4,5? Mais de 30 não é? E em cada escritório mais de 20 pessoas, todas elas a escreverem sobre os mais variadíssimos tópicos, assuntos, temas, tudo coisas da mais alta importância para o estado, para o governo, para o pais!! 
- Em permanente actualização!
- Claro que sim, em permanente actualização!
- Pois é Inspector!
- Claro que sim, e em todos esses escritórios, todas essas pessoas foram contratadas para preencher um perfil muito especifico de maneira a desempenharem a sua função com a mais absoluta exactidão cientifica, politica, enfim, enfim, enfim, correcto 4,5?
- Correcto Inspector!
- Claro que sim, pois bem 4,5, eu suponho, sou um suposto Inspector, um Inspector da suposição, suponho sobre tudo o que os outros escrevem, sou eu quem gera as dúvidas, as incertezas, as questões, sou eu quem levanta certas causas pelas quais tantos lutam e só depois de sentirem a garganta a doer quando acabam a luta e chegam a casa cansados, exaustos, suados, com quatro ou cinco pastilhas para a gripe no bucho depois de terem estado o dia todo ao sol a gritar por um ideal, por nada, para nada, por um ideal ou ideais que eles julgam ou julgavam ou julgarão ser um direito, eu caio-lhes em cima como um raio, como um trovão, como um relâmpago, foda-se como um corrisco como se fosse um adolescente aos pontapés e grito-lhes aos ouvidos, um a um: "ESTÁ TUDO MAL, VOCÊS ESTÃO MAL, ESTÁ TUDO MAL, ELES ESTÃO MAL, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O GOVERNO, ABAIXO O VELHO IDEAL, VIVA O NOVO IDEAL!"
- Tudo mal inspector.. tudo mal.. é bem verdade..
- Claro que sim 4,5, eu sou a jurisprudência, a idoneidade, a identidade, a salvaguarda do estado, se o povo não lutar para que raio é que precisamos do governo? Como vai um governo governar se não existir desgovernação? Há que haver luta para governar! Há que haver sangue nas ruas para o que governa possa vir e salvaguardar a ordem, e segue e segue e segue e segue, e assim continuaremos até que você me traga a merda dos queques de morango porque já estou a ficar com fome.

sexta-feira

Pouco mais te posso dizer porque és-me muito mais do se possa dizer. Já passámos por tanto, às vezes parece que já passámos por demais, mas eu sei que ainda temos que passar por muito e é só a ti que eu quero a meu lado. 

Amo-te,


"I'm sin done in water
You might be over hill.

He's somebody's daughter
As far as Liz well knows.

Send me a black one
Other than a big sun
Open with a castrate
A mystery mind.

He sits her with father
We seem so in a two.


(...)"


MUITO! ^^
- Olá bom dia, Senhor Raul está por cá?

O Senhor Raul Bacalhau tinha apresentado queixa na esquadra porque um cavalheiro muito mal educado tinha ido à sua loja ofender mais de 89% da sua família, algo simplesmente inadmissível.

- Estou pois, estou pois meu caro, o que veio comprar? Se veio para ofender leva já uma lambada!
- Acalme-se Senhor Raul, o meu nome é Ribeiro Laranja, sou agente da autoridade anual, vim porque o senhor fez uma queixa sobre um cavalheiro muito mal educado.
- Ah! Ah pois fiz! - Disse o senhor Raul num tom escandalosamente irritante, não tanto pelo barulho mas mais pelo fumo que lhe saia pelas pestanas - E deixe-me que lhe diga, que já há muitos anos que não me lembrava de ter visto tamanha falta de educação!
- Isso compete-me a mim decidir senhor Raul Bacalhau, importa-se de chamar as visadas, para que eu as possa interrogar?
- Ah!  Ah pois claro que chamo! - Nisto, o senhor Raul solta um grito quase visceral, notavelmente feio e incrivelmente irritante, novamente por causa do fumo mas não propriamente pelo barulho: RAULINDA, TRAZ CÁ AS FILHAS!

Saíram todas, por um buraco muito pequeno, uma imensidão de corpos horrorosos e cheios de suor, notava-se claramente que tinham estado a chorar desde que o tal senhor muito mal educado as tinha ofendido. Tinham-se posto todas em linha, por ordem decrescente do lado esquerdo para o direito encostadas a uma parede cheia de latas sardinha vazias que estavam à venda, o negócio das latas de sardinha usadas era um negócio importantíssimo nesta parte da cidade.

- Bem, minhas queridas, sabem o nome do senhor?
- JUGÚSTAVO! - Lá estava aquele fumo e aquele barulho.. -
- E o segundo nome?
- NÃO SABEMOS!
- Não tinha segundo nome?
- NÃO SABEMOS! NÃO NOS DISSE!
- Senhor Bacalhau, se não se importa, prefiro falar consigo, esta fumarada irrita-me as orelhas e daquê pouco começo a tossir dentes que é uma coisa parva.
- Com toda a certeza!
- O Senhor Jugústavo não tinha segundo nome?
- Se tinha não nos disse.
- Sabe que, a verdade.. bem.. fiquei bastante intrigado quando fui assinalado para vir investigar uma queixa por má educação, porque, bem.. a verdade é que desde que me lembro de ter ganho o crachá de investigador nunca tinha ouvido falar um crime deste género porque no fundo, como bem sabe, isto é um crime e faz anos, anos.. que não havia um único crime nem neste lado da ponte, no entanto aqui estou eu.  - O Senhor bacalhau escutava-me com uma atenção incrível - Portanto Senhor Bacalhau deixe-me que lhe diga que..
- Sim! Sim! Ah sim! Por favor diga-me!
- O senhor Jugústavo realmente não é a meu ver, nenhum criminoso, nem me parece, sendo-lhe o mais honesto que o meu espírito me permite ser, mal educado ou mentiroso.
- Ui.. olhe que.. elá.. estou chocado.. não.. não estou a perceber onde quer chegar, o que quer dizer?
- Bem Senhor Raul Bacalhau, as suas filhas são, de facto, feias como a cornadura e eu vou ter que dar a investigação por encerrada porque se o senhor Jugústavo teve para consigo e para com a suas filhas alguma atitude a que o senhor não esteja habituado foi sinceridade.

quarta-feira

Sentia-me perdido, aliás sabia que estava perdido pois à mais de duas horas que andava à procura da mercearia do senhor Américo para comprar os atacadores para as botas do meu pai. Ainda não tinha decido parar para pedir direcções porque sinceramente, ainda não tinha encontrado nenhum sitio onde me parecesse que fosse possível obter direcções credíveis e honestas, pois como bem sabem, neste mundo de barbas todo o cuidado é pouco e eu fui educado a ter sempre o máximo de cuidado possível mesmo com o mais pequeno dos detalhes. Ao vaguear pelas ruas, que por esta altura do ano estavam cobertas daquelas horríveis aves migratórias que deixam o chão peganhento por causa das suas escarretas e o céu lilás por causa dos gases que emitem sempre que pousam nas chaminés que estão carregadas do pó da época festiva que celebra a morte do Aníbal Bravo, o nosso grande e ousado salvador, tive finalmente sorte quando encontrei um grande letreiro com letras enormes de néon azul, com lâmpadas amareladas à sua volta que dizia "Raul, o Rei do Bacalhau". 
Alguém que seja rei, será certamente a pessoa indicada para me dar as indicações que preciso. Entro na loja e rapidamente apercebo-me que provavelmente estou no sitio errado, havia sal por todo o lado mas nada de bacalhau. Aproximo-me do balcão e dou quatro toques no chão de madeira com a minha bengala feita de borracha e ferro enferrujado, tinha-me sido oferecida pelo meu avô que, no leito da grande regra me disse com os seus três olhos azuis: "Júgustavo um dia saberás que para além de matar baratas, esta bengala vai-te ajudar a cavar todas as aranhas que precisas." E morreu, feliz, porque o seu sorriso era bem maior do que as almofadas que lhe apoiavam as orelhas. 
Finalmente, através que uma brecha da parede que julguei ser apenas um buraco por onde passassem os tuberculosos, sai um homem com um porte fabuloso, alto, gordo, com quase dois metros de altura e 120 quilos, mas muito marreco, tão marreco que mal conseguia chegar com o queixo ao balcão, foi-me fácil saber a altura porque estava-lhe escrita na testa.

- Olá bom dia meu caro, em que posso ajudá-lo?
- Bem, eu estou à procura de atacadores.
- Pois bem, veio ao sitio certo?
- Ai vim? Então mas, o senhor não vende bacalhau?
- Eu vendo tudo, de tudo!
- Explique-me então como é que o senhor é o rei do bacalhau se só tem sal?
- Oh meu caro, como raios queria você que eu vendesse bacalhau se não tivesse o sal para o salgar?

A sua resposta escandalosamente clarificante fez-me dar uma dentada na bengala, quando já estava a chegar ao ferro, oiço uns passos pesados e vejo sair pelo mesmo buraco de onde saiu este marreco uma mulher ainda mais forte do que ele, enorme, com um vestido azul que mesmo com a pouca luz existente fazia com que me fosse muito complicado olhar para ela. 

- Uuuuuuuh Raul, o que temos nós aqui? Um cliente? Logo agora que só temos sal!
- Sabe minha senhora, eu na verdade nem quero bacalhau, só quero comprar atacadores para as botas do meu pai.
- Veio ao sitio certo!
- Já é a segunda vez que me dizem isso desde que cá cheguei e a verdade é que me custa muito a acreditar que tenha vindo ao sitio certo, porque na entrada indica que o seu esposo é o Rei do bacalhau e nem um bacalhau tem para amostra!
- Que perspicaz este belo rapaz! Oh Raul, fazia tempo que não tinhamos assim um vivaço, as minhas filhas vão adorar conhecê-lo!

Após dizer isto saem, pelo mesmo buraco 5 raparigas cada uma mais feia do que a outra e todas elas riam e choravam, dos seus três pares de olhos caiam pregos e pontas de papel de rebuçado, uma coisa parva para a vista mas ainda pior para os ouvidos pois o barulho que faziam fazia lembrar o de um cardume que vem à superfície em busca de comida e é devorado pelos caniches asas curtas, tentei ser o mais cordial, o mais gentil possivel na escolha das minhas palavras e disse:

- Puta que pariu! Cada uma mais feia do que a outra, eu a pensar que você era feia mas, Santo Anibal! Depois de ver estas cangalheiras fiquei com uma vontade de largar uma bela poia de merda no meio deste sal, podia ser que ao menos trouxesse alguma cor a esta loja de merda!

Sai da loja, estava farto do cheiro, do barulho, da escuridão. Senti-me imediatamente sozinho, porque, sinceramente, naquele ambiente pútrido senti que a minha feiura não tinha sido questionada mas por breves momentos adorada. Quis voltar mas sempre me ensinaram que o passado não empurra a água, apesar de eu nunca ter percebido este ditado que as velhotas desdentadas costumavam dizer à minha mãe na altura da apanha da farinha.
Segui por uma rua iluminada porque o meu senti o meu corpo levar-me para lá, a rua estava a vibrar de gente. Estava impregnado no ar um cheiro a uma mistura de perfumes, de polpa de tomate, de palavras falsas, de amor, de romance, de ódio,  paixão, tudo misturado, palpável, vendia-se aliás em pequenas bancadas de limonada de framboesa pequenos frascos da fragrância "Cheiro Mome", era o nome que se dava ao cheiro que impregnava as ruas nesta altura festiva. Dizia a lenda que, quando o nosso grande salvador, o Anibal, derrotou os cavaleiros da fortuna e os trouxe à praça do povo e os obrigou a beijar os pés a todos os que sofreram de acordo com os seus caprichos, disse-lhes:

"Vocês, reles e sujos,
Despojaram-nos a alma
Vocês, reles e sujos,
Fizeram-nos que somos menos

Vocês, cobardes e feios, 
Minaram-nos o feitio
Vocês, cobardes e feios,
Tornaram-nos melhores

Somos agora melhores, depois de anos a ser inferiores
Visto que tudo o somos somo-lo sem vós
Somos agora melhores porque sabemos ser superiores
Queremos agora viver ao sabor dos nossos avós

Vamos viver, gritar, correr
Vamos chorar, gritar, gemer
Vamos amar, vamos comer
Vamos sofrer mas vamos vencer

Encolham-se na vossa figura, deixem-nos viver
Porque jamais vamos nós voltar a negar aquilo que fomos
Percebam que são vocês menos, e nunca o contrário
Porque jamais vamos-nos voltar a dobrar sobre aquilo que somos"

Foi com este poema que o Santo Aníbal, o nosso salvador, derrubou o poder do vicio e conquistou o povo. Um homem grandioso, um exemplo, o alcoólico mas no entanto um herói, porque independentemente do vicio, sabemos nós, todos nós sem excepção, que as grandes almas têm grandes vícios. Cheguei sem os atacadores, o meu pai apercebeu-se logo que eu não os tinha trazido e assim que pus um pé dentro de casa perguntou-me:

- Então rapaz, que cara é essa?
- Bem pai, acho que vais para a tropa descalço.